
“As viagens são os viajantes
O que vemos não é o que vemos,
mas o que somos.”
Fernando Pessoa.
Viajar é algo recente na História da Humanidade.
Nunca se viajou tanto como nas últimas décadas, quando houve a explosão de turismo de massa, esse que atravanca balcões de aeroportos e filas nos lugares turísticos para onde essa massa imensa se desloca e que se tornam mais tormento do que qualquer prazer possível.
Para se ter uma ideia, em 1950 25 milhões de turistas cruzaram o norte e o sul do mundo.
Em 2025, esse número atingiu patamares impressionantes, com 1,5 bilhões de criaturas girando o mundo por terra, mar e ar.
Viajar sempre foi privilégio de elites, que viajavam como parte da exclusividade do extrato social a que pertenciam, acomodados de maneira confortável, seja lá como fosse, em trens, navios ou aviões disponíveis na época.
De repente, todos resolveram sair pelo mundo e quem não viaja é olhado com estranheza, bicho esquisito necessitando de auxílio médico.
A ordem é se movimentar pelo planeta, obedecendo à ordem do ditado que diz que quem fica parado é poste.
Quem sou eu na fila do pão para dizer o contrário?
Que vão e aproveitem da forma que lhes aprouver.
Muitos nem sabem por que viajam, para que e para quem viajam.
Neste mundo de aparências, arrisco a dizer que não são poucos os que se aventuram por aí pensando mais nas fotos que irão postar nas amadas redes sociais do que todo o resto.
Para esses, não basta ser, mas aparecer.
Bobos alegres soltos no mundo, obedecendo ao roteiro previsto e preestabelecido.
Ponto.
Mas há alguns que mais viajam do que param dentro de casa, e a sensação que prevalece é a de que se quer estar a todo custo onde não se está,em busca de alguma epifania impossível, indo de um lugar a outro em busca de não se sabe exatamente o que, enquanto mata a fome do espírito em prazeres da mesa, sempre renovados.
Um certo Fernando Pessoa pouco saiu da sua Lisboa durante toda a sua vida e tinha como tema central em sua obra a de que se pode conhecer o mundo sem sair do próprio quarto, e que para viajar basta existir, que é sem dúvida a grande viagem de sensações e conhecimento, onde se vai de dia a dia, como de estação a estação,
apresentada a novas e profundas experiências.
É, sem dúvida, visão oposta à dos viajantes inquietos que procuram em cada canto do planeta aquilo que para muitos pode ser encontrado em viagem sensorial e intelectual íntimos, sem a necessidade do deslocamento físico.
Fato é que o mais se vê é gente se movimentando para lá e para cá, arrastando malas, vendo sem ver, olhando a esmo, carimbando passaporte como se não houvesse amanhã, cumprindo meta no quesito viagem e retornando para seu destino de origem da mesma forma como iniciou o trajeto.
Nada mudou, nada se alterou, transformação zero.
Não consigo observá-los sem me remeter à frase que li há tempos e tanto a aprecio que a tenho quase como minha:
“Não é por que o burro viaja que retorna um corcel.”
Há viagens e viagens.
Há viajantes e viajantes.
Pascal disse uma vez que todos os problemas da humanidade derivam da incapacidade de ficarmos sentados, sozinhos, em silêncio, num quarto.
Não fui eu a dizê-lo, mas subscrevo com gosto.

