6 de março de 2026
Silvia Gabas

Viagem ao redor do meu quarto

“As viagens são os viajantes
O que vemos não é o que vemos,
mas o que somos.”
Fernando Pessoa.

Viajar é algo recente na História da Humanidade.

Nunca se viajou tanto como nas últimas décadas, quando houve a explosão de turismo de massa, esse que atravanca balcões de aeroportos e filas nos lugares turísticos para onde essa massa imensa se desloca e que se tornam mais tormento do que qualquer prazer possível.

Para se ter uma ideia, em 1950 25 milhões de turistas cruzaram o norte e o sul do mundo.

Em 2025, esse número atingiu patamares impressionantes, com 1,5 bilhões de criaturas girando o mundo por terra, mar e ar.

Viajar sempre foi privilégio de elites, que viajavam como parte da exclusividade do extrato social a que pertenciam, acomodados de maneira confortável, seja lá como fosse, em trens, navios ou aviões disponíveis na época.

De repente, todos resolveram sair pelo mundo e quem não viaja é olhado com estranheza, bicho esquisito necessitando de auxílio médico.

A ordem é se movimentar pelo planeta, obedecendo à ordem do ditado que diz que quem fica parado é poste.

Quem sou eu na fila do pão para dizer o contrário?

Que vão e aproveitem da forma que lhes aprouver.

Muitos nem sabem por que viajam, para que e para quem viajam.

Neste mundo de aparências, arrisco a dizer que não são poucos os que se aventuram por aí pensando mais nas fotos que irão postar nas amadas redes sociais do que todo o resto.

Para esses, não basta ser, mas aparecer.

Bobos alegres soltos no mundo, obedecendo ao roteiro previsto e preestabelecido.

Ponto.

Mas há alguns que mais viajam do que param dentro de casa, e a sensação que prevalece é a de que se quer estar a todo custo onde não se está,em busca de alguma epifania impossível, indo de um lugar a outro em busca de não se sabe exatamente o que, enquanto mata a fome do espírito em prazeres da mesa, sempre renovados.

Um certo Fernando Pessoa pouco saiu da sua Lisboa durante toda a sua vida e tinha como tema central em sua obra a de que se pode conhecer o mundo sem sair do próprio quarto, e que para viajar basta existir, que é sem dúvida a grande viagem de sensações e conhecimento, onde se vai de dia a dia, como de estação a estação,
apresentada a novas e profundas experiências.

É, sem dúvida, visão oposta à dos viajantes inquietos que procuram em cada canto do planeta aquilo que para muitos pode ser encontrado em viagem sensorial e intelectual íntimos, sem a necessidade do deslocamento físico.

Fato é que o mais se vê é gente se movimentando para lá e para cá, arrastando malas, vendo sem ver, olhando a esmo, carimbando passaporte como se não houvesse amanhã, cumprindo meta no quesito viagem e retornando para seu destino de origem da mesma forma como iniciou o trajeto.

Nada mudou, nada se alterou, transformação zero.

Não consigo observá-los sem me remeter à frase que li há tempos e tanto a aprecio que a tenho quase como minha:

“Não é por que o burro viaja que retorna um corcel.”

Há viagens e viagens.

Há viajantes e viajantes.

Pascal disse uma vez que todos os problemas da humanidade derivam da incapacidade de ficarmos sentados, sozinhos, em silêncio, num quarto.

Não fui eu a dizê-lo, mas subscrevo com gosto.

Silvia Gabas

Com formação em Direito e Serviço Social, leitora compulsiva, com olhar atento para as grandes questões do mundo, dando sua contribuição através de textos publicados nas suas redes e sociais e na revista Stampa, entre outros veículos de comunicação.

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Com formação em Direito e Serviço Social, leitora compulsiva, com olhar atento para as grandes questões do mundo, dando sua contribuição através de textos publicados nas suas redes e sociais e na revista Stampa, entre outros veículos de comunicação.

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