
Nunca me senti mais à vontade do que dentro de uma livraria.
Enquanto a maioria das gentes não vê a hora de entrar em uma loja qualquer, eu finjo gostar, mas a verdade mesmo é que não vejo a hora de colocar os pés dentro de uma livraria, essa espécie de templo de saber que vai se transformando em verdadeira raridade num mundo onde os idiotas claramente venceram e dão as cartas.
Nelson Rodrigues avisou, Nelson Rodrigues acertou.
A nós restou este presente de zumbis sem cérebro, essa que é a verdade.
Não que que livros sejam sinônimo de sabedoria, essa dura lição que a realidade da vida me trouxe.
Eu mesma conheço homens que afirmam ter lido a Biblioteca completa de Constantinopla mais de uma vez, mas não passam de narcisistas metidos a besta, verdadeiros papagaios desprovidos de senso critico, que mais envergonham do que engrandecem o mundo da literatura.
Mas, estando eu em São Paulo, e sabendo que uma nova livraria havia sido aberta na cidade, para lá me dirigi sob o sol escaldante das altas temperaturas deste Dezembro atípico, pé ante pé, porque andar pela Avenida Paulista sempre é um imenso prazer para quem tem olhos pra ver e um coração para sentir, como verdadeiro centro pulsante dessa cidade que é selva de pedra, mas onde é possível viver as mais incríveis aventuras culturais.
E lá chegando, que baita decepção!
Uma livraria deve ter como primeira condição ser aconchegante o suficiente para te chamar para dentro, te atrair de imediato para aquele mundo infinito de autores de todas as épocas, estilos e pensamentos.
É ali que se travam as melhores e maiores amizades de toda uma vida, com mentes que deixaram seu recado e com você compartilham seu legado.
Não basta ter 800 metros quadrados, como anunciado, se falta o principal: aconchego e livros.
Uma meia dúzia mequetrefe de volumes e autores, distribuídos de maneira a tentar completar as estantes, aparentemente colocados lá às pressas, sem o cuidado de dividi-los por países, por exemplo, e aí poderíamos transitar pelos corredores e olhar para o livro, pegá-lo na mão, folhear suas páginas, aprovar sua capa, conhecer – ou reconhecer – o estilo de autores das literaturas russa, francesa, alemã, portuguesa e tantas outras mais.
A graça de estar dentro de uma livraria é esse encontro com amigos perdidos no espaço e tempo das eras. Mas o que mais vi foi o que não vi, essa que é a verdade.
Ainda não refeita da frustrante visita no dia anterior à extinta Livraria Cultura do Conjunto Nacional, a fabulosa e para sempre lembrada livraria fundada por Eva Herz, verdadeiro oásis para os amantes dos livros e música de qualidade e onde hoje reina, sobre os seus escombros, o surreal império da Magazine Luiza, com bens de consumos sendo oferecidos em cada metro quadrado daquele local que hoje considero o cemitério literário de uma época feliz que se foi, ainda não refeita dessa imensa tristeza, restou mais uma decepção com a nova livraria que certamente foi construída por quem nada entende de livros e muito menos entende daqueles que os amam.
Experiência sensorial zero.
É assim que vão nos tirando tudo, restando apenas a nudez radical de uma elegância e refinamento cultural que as próximas gerações não irão conhecer.

