Quem nunca pagou um mico, atire a primeira pedra


Desde criança minha mãe fez questão que eu e minhas irmãs estudássemos  música.  Além disso tínhamos as  aulas de solfejo e canto orfeônico que era uma das matérias do  Liceu Pasteur onde as três estudavam.
Começamos com aulas violão que era muito chato. Depois aulas de piano que era muito grande e complicado de ter em casa. No final aulas de harmônica. Ganhamos uma Scandalli preta com teclado de marfim mas éramos meninas e mal conseguíamos segurar a “sanfona” mesmo com  um  banquinho de madeira  feito especialmente para nós pequenas.
Apesar de todo o esforço dos meus pais nenhuma das filhas se tornou pianista, violonista e nem “sanfoneira”.
Mas ficou em nós  o interesse pela música, interpretada por quem tem vocação. E conforme fomos crescendo, a música foi cada vez mais presente na nossa casa na vitrola e nos long plays que tivemos.
Eu particularmente gosto de músicas de diversos gêneros, de dance music, jazz a  orquestras sinfônicas, filarmônicas.
Um dia, muito tempo depois, já com meu escritório de Assessoria de Imprensa tive a sorte de ter como novos vizinhos de sala o Mozarteum Brasileiro e logo fizemos amizade. Fui incluída no mailing de convidados para a programação anual e isso durou anos. Devo a eles o meu conhecimento de musica clássica e ter tido a oportunidade de ver e ouvir as melhores orquestras do mundo regida pelos grandes maestros internacionais.
Numa dessas apresentações ganhei convites para assistir a Orquestra Sinfônica do Teatro Scala de Milão na Sala São Paulo.  Os lugares dessa vez eram no Coro que fica atrás da orquestra.  A impressão que dava era que estávamos dentro da orquestra.
Teatro lotado e logo em seguida os músicos começaram a entrar no palco, ocuparem seus lugares e afinarem os seus instrumentos. Dava para ouvir a conversa entre eles e eu fiquei encantada. Um dos músicos que  sentou ao lado do Coro onde estávamos, me deu um belo sorriso tipo “Buona sera!” e eu retribui com outro sorriso.
Ricardo Mutti regeu a orquestra  e a primeira parte foi linda.
No intervalo o músico italiano galanteador veio até a divisória do fundo palco e veio falar comigo. Lindo, cheiroso e super elegante num smoking impecável.
Perguntou se eu estava gostando e me adiantou que a segunda parte ia ser maravilhosa.
E realmente foi. O público aplaudiu muito e eles  ainda bisaram. Já me preparava para levantar e sair quando ele se aproximou e me deu um cartão com o telefone do hotel Hilton  convidando  para ir ao coquetel que iriam oferecer aos patrocinadores e ao Mozarteum Brasileiro. Agradeci e não disse nem sim e nem não, mas  retribui dando a ele o meu cartão de visitas.
Quando chego em casa –   ainda ouvindo os acordes afinadíssimos nos meus tímpanos, pego o programa  e fico vendo se acho  a foto dele. Tinha a de todos os  músicos integrantes e ao lado havia um nome. Localizei a dele  e li ao lado da foto  o nome Otavino.
No mesmo minuto toca o telefone.  Era ele, insistindo para eu  ir ao coquetel. Me desculpei dizendo que iria viajar  no dia seguinte bem cedo  e finalizei o papo com um “Grazia per tutti  Otavino!” me sentindo poderosa por ter tido a iniciativa de chamá-lo pelo nome sem ao menos ele ter se apresentado.  Na hora ele retrucou rindo …”No…no me chiamo Otavino! Mi chiamo Marco!!!
Soube depois por um amigo maestro que  Otavino é o nome do instrumento musical que ele toca ou seja flautim. Aí entendi o porquê de tanta gargalhada!!!
Pensei: bem feito para mim.! Acho de depois de tê-lo  chamado  de flautim e ter esnobado o convite do coquetel  tinha perdido o novo amigo músico e dos bons! Além de lindo!
Mas, pensei,  quem mandou não estudar musica como minha mãe sempre quis???
No dia seguinte pela manhã fui viajar para Recife de férias. Passei um tempão lá na casa de amigos e no começo de janeiro voltei para SP.
Nem bem chego toca o telefone.
Era o “Otavino” digo Marco,  que me ligava do teatro Scala me convidando para ir para Milão  e assistir a temporada de Opera que estava para começar e eu seria sua convidada. Dava para ouvir a orquestra afinando os instrumentos no ensaio. Foi duro recusar.
De graça não iria sair. Mas o diabinho  ficava na minha orelha sussurrando…”você vai perder essa oportunidade ??????”
Perdi… assim como até hoje só toco o bife a quatro mãos no piano. Foi o que restou.
Mas outras orquestras vieram e outros músicos também  me encantaram. Sempre que vou assistir um espetáculo desses, observo e escolho um ou dois componentes da orquestra  e fico acompanhando e pensando como será a vida de um músico de uma orquestra com turnês internacionais.
E até hoje ele, o meu músico galanteador,  continua sendo o Otavino!BRAVO!!!!(Aplausos)

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