Sandro Vaia: homenagem póstuma do Boletim

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NOTA DO EDITOR: Hoje acordei com uma notícia triste. Sandro Vaia, nosso colunista e amigo desde abril de 2014, nos deixou. Fica aqui a nossa homenagem a este jornalista fantástico e à sua família que passa por momentos tão difíceis. Força Vera Vaia!
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Algumas das muitas homenagens feitas a este grande jornalista e excepcional ser humano.


BLOG DO NOBLAT
http://noblat.oglobo.globo.com/artigos/noticia/2016/04/pequenos-assassinatos-03-04-2016.html
O mesmo texto foi publicado aqui no Boletim: https://www.oboletim.com.br/2016/03/04/pequenos-assassinatos/


O ESTADÃO
jornal onde ele trabalhou como Diretor de 2000 a 2006 deixou uma homenagem no dia de hoje, vejam o link
http://www.estadao.com.br/noticias/geral,jornalista-inovador-em-tempo-integral,10000024541


E, para concluir, nosso colunista SÉRGIO VAZ, que trabalhou diretamente com ele durante alguns anos, amigo particular da família, também escreveu um texto para o Sandro, amigos e família.
Amigo Sérgio Vaz, suas palavras são o sentimento deste site, para quem Sandro também contribuiu diretamente durante 2 anos. Segue seu texto:

Sandro Vaia

Ele foi meu guia, meu mentor no jornalismo.

Muitos anos atrás, um guarda rodoviário parou o Sandro na estrada. Pobre guarda. Se soubesse o que viria pela frente, teria deixado passar.
Pediu a carteira de habilitação. Sandro não tinha.
Pediu a carteira de identidade. Sandro não tinha.
Pediu algum documento qualquer – título de eleitor, qualquer coisa. Sandro não tinha.
E não tinha mesmo. Nasceu na Itália, saiu de lá bebê de colo, a família passou um tempinho na Bolívia, ele chegou ao Brasil ainda bem criança. Não tinha certidão de nascimento, não tinha Modelo 19, que acho que era como se chamava o documento de cidadãos estrangeiros. Não se preocupou em se naturalizar, em tirar carteira de habilitação, título de eleitor.
Foi só nos anos 1980, se não me engano, que foi atrás da papelada, enfrentou a burocracia.
Sandro Angelo Vaia era, no fundo, um anarquista.
O anarquismo é uma coisa tipicamente italiana – assim como o Sandro, como Sacco e Vanzetti.
Uma noite, depois do fechamento do dia na redação da revista Afinal, fomos para a casa do Mel – Melchíades Cunha Lima. Enchemos a cara, falamos fiado horas. Lá pelas tantas, o Mel danou a falar mal do apartheid, dos brancos da África do Sul – e o Sandro, devagar, começou a dizer que em parte eles tinham lá suas razões. E danou a falar da guerra dos bôeres, e sei lá mais o quê, para o horror do Mel, da Tonica Chagas e do Bernardo de Andrade Carvalho, que também estavam.
Eu fiquei na minha. Sabia que o Sandro não acreditava em nada daquilo que estava falando, só queria acirrar o debate, e ver os outros ficarem cada vez mais horrorizados.
Adorava acirrar debates. Vi várias vezes o Sandro mudar de opinião no meio de uma discussão acalorada, porque via que um dos dois lados estava mais fraco de argumentos, e havia o risco de o debate acabar.
Um anarquista.
***
zzzzzzzz-JT-189x300Ah, sim, é preciso explicar: o guarda rodoviário ficou inteiramente zonzo quando o Sandro explicou a coisa de ter saído da Itália ainda bebê de colo, e portanto sem documento. Aí pensou, pensou e disse mais ou menos o seguinte: – “Eu não sei o que fazer com o senhor. Eu não consigo imaginar o que fazer com o senhor. Olhe, vá embora, suma da minha frente.”
***
Murilo Felisberto e Fernando Lima Mitre fizeram algumas das mais belas capas do Jornal da Tarde – o jornal mais bem diagramado que já houve no país. Mas uma das capas mais inesquecíveis dos bons tempos do JT foi idéia dele.
Era a Copa da Espanha, 1982, o Brasil de Sócrates, Zico e Falcão eliminado. Sandro pediu os contatos das fotos dos enviados especiais. Com seu faro incrível, descobriu, no meio das dezenas e dezenas e dezenas de foto, a do garotinho com a camisa da Seleção e a expressão mais triste deste mundo.
A foto – creio que de autoria do grande Reginaldo Manente – ocupou toda a primeira página, de alto abaixo. No pé da página, em letras brancas sobre fundo preto, a manchete: “Barcelona, 5 de julho de 1982”.
***
zzzzzzzz-estadao-177x300Exatos 20 anos depois, em 2002, Sandro era diretor de redação do Estadão quando o Brasil foi pentacampeão. De novo, fez uma primeira página com uma foto gigantesca, bem aberta, do capitão Cafu segurando a taça – algo pouco usual para o sisudo jornalão. No alto da página, acima da manchete, botou as cinco estrelinhas amarelas. A manchete:  “O maior campeão do mundo”. (A foto era de Alaor Filho.)
Foi o único dos grandes jornais brasileiros que não usou a palavra pentacampeão na manchete. “Foi proposital. Acho pentacampeão uma palavra horrorosa”, disse Sandro – e a declaração saiu no Estadão, quando o jornal ganhou o Prêmio Esso Especial de Primeira Página com ela.
Sandro tinha implicância terrível com algumas palavras e expressões. Tinha horror de frases com “alvo”: fulano foi alvo de acusações, fulano é alvo de investigações. Detestava a palavra “genial” quando empregada para obras de arte: achava gasto demais.
***
Uma vez vi o Sandro cortando um texto. Babei com a arte, o engenho, a calma, a perfeição. Deveria ter me posto de pé e batido palmas como na ópera.
O texto era meu.
Ele era, na época, começo dos anos 1980, editor de Variedades. (Foi editor de quase tudo no JT, de Reportagem Geral, de Esportes, de Variedades. Sempre brilhante.) Eu era sub-editor de Geral, e, por sugestão dele, incentivo dele, havia começado a escrever críticas de discos e shows. E então entreguei a ele um texto – claro que não me lembro mais sobre o que era. Entreguei o texto em laudas datilografadas – o mundo pré-computador. A página já estava desenhada, e o texto estava maior que o espaço reservado para ele.
Sandro foi cortando, com a caneta, não frases inteiras – mas algumas palavras desnecessárias, ou dispensáveis. Um adjetivo aqui, um advérbio ali, um detalhezinho acolá.
Não tirou fora uma idéia, uma afirmação – mas reduziu o texto ao tamanho exigido pela página.
Um brilho.
***
Quando cheguei ao Jornal da Tarde, em julho de 1970, Sandro era chefe de reportagem na editoria principal do jornal, a de Reportagem Geral, ou simplesmente Geral. O editor era Fernando Portela. Entre os repórteres havia Valdir Sanches, Antônio Carlos Fon, Inajar de Souza, Percival de Souza, Fernando Moraes – só fera, e eu foquinha de tudo. Entre os copydesks estavam Anélio Barreto, Sérgio Rondino, Gilberto Mansur, José Eduardo Borgonovi, o Castor, Humberto Werneck, Marco Antônio Menezes – só fera brava.
Em alguns fins de semana, acho de que três em três, Sandro fazia plantão editando, num esquema que permitisse a folga do editor. Lá por meados de 1971, ele começou a me escalar nos fins de semana para trabalhar como copy. Depois de alguns meses disso, Portela e ele decidiram que eu sairia da reportagem e ficaria mesmo como copydesk.
Foi Sandro Vaia que farejou que eu seria melhor redator do que repórter. Que meu negócio era mesmo trabalhar texto.
Aquilo foi determinante para toda minha vida de jornalista. Pouquíssimas vezes, ao longo dos 36 anos em que trabalhei em redações, voltei a fazer reportagens: sempre fui copydesk, depois sub-editor, depois editor, redator-chefe algumas vezes. Dos 36 anos de jornalismo, passei quase 35 cuidando dos textos dos outros, em vez de fazer os meus – e deve ser mesmo por isso, para me vingar disso, que eu tenha passado a escrever tanto, aqui e no 50 Anos de Filmes, depois que me aposentei.
***
Nos meus primeiros anos de JT, o editor-chefe era Murilo Felisberto. Ivan Ângelo era o secretário de redação, o segundo na hierarquia. E Fernando Mitre era o terceiro.
Murilo era conhecido como Rainha, e poucas vezes na vida soube de um apelido mais perfeito do que esse. A Rainha era ainda da era do absolutismo.
O JT pagava salários régios, fabulosos, aos editores e a alguns repórteres especiais. E salários bem baixos para muitos repórteres e mesmo copydesks que não eram estrelas. Conviviam dentro da redação suíços e biafrentos. Quem determinava os salários era a Rainha – absolutistamente.
Ainda em 1970, ou em 1971, começou a circular pela redação um texto absolutamente primoroso denunciando a má distribuição de renda no jornal, a concentração de renda por alguns poucos, a tremenda injustiça social. O texto, elegantérrimo, magoou a Rainha.
Nunca se divulgou abertamente o autor. Apenas algumas poucas pessoas sabiam.
Claro: o texto era de Sandro Vaia.
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Ao nascer, no segundo semestre de 1984, a revista Afinal provocou um terremoto no Jornal da Tarde. Saímos de lá, de uma só vez, Fernando Mitre, Sandro Vaia, Anélio Barreto, Ari Schneider Valdir Sanches, Miguel Ângelo Filiagi, Maria Amélia Rocha Lopes, Mário Schwartz e eu. (Estarei esquecendo alguém?)
Tivemos um ano e meio de absoluta fartura, e aí o dinheiro do dono, o sujeito louco que criou a revista, Gustavo Cubas, acabou. Os salários começaram a atrasar. Foi a vez de um monte de gente sair da revista, em busca de estabilidade. Mitre, que era o diretor de redação, foi dirigir o jornalismo da Bandeirantes, e Sandro assumiu o lugar dele.
Ao contrário das outras revistas semanais de informação, a Afinal não tinha carta ao leitor, aquele editorial em geral assinado pelo chefe de redação. Em alguns poucos momentos especiais havia um bissextérrimo editorial. Quando o senador Mario Covas fez o famoso discurso pregando que o país precisava de um choque de capitalismo, Sandro resolveu fazer um editorial – a favor do discurso, é claro.
Foi um dos melhores textos que a Afinal publicou em seus quatro anos de existência. E olha que a Afinal publicou muito texto bom.
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Comecei no jornalismo em uma monarquia absolutista, mas tive a sorte de participar de duas redações absolutamente democráticas. Primeiro, a Afinal. E depois ainda tive uma experiência fascinante de dois anos como redator-chefe da revista Marie Claire, então dirigida por Regina Lemos, jornalista brilhante, pessoa extraordinária – e minha ex-mulher, mas isso é o de menos.
Mitre é um democrata, mas, quando Sandro assumiu a direção da Afinal, com a redação minguando, muita gente saindo, a coisa da democracia foi ainda mais aprimorada. Era uma democracia radical – todo mundo tinha direito a dar palpite, até a foquinha mais foquinha, seja do texto, como Fernandinha Domingues, seja da foto, como Mônica Maia.
E toda noite, toda santa noite, após o fechamento, descíamos todos para o Bar do Baiano, ao lado da redação, na Rua Maria Antônia, e enchíamos a cara e jogávamos papo fora. O diretor de redação, alguns editores, os fotógrafos, as foquinhas – quem quisesse.
Teve uma semana em que Sandro não bebeu, por estar tomando antibiótico, ou coisa parecida. Na primeira dessas noites, Fernandinha Domingues saiu-se com uma absoluta pérola: – “Ué, Seu Sandro, o senhor sabe dirigir sem beber?”
Sandro sempre morou em Jundiaí. Se somasse os quilômetros que percorreu na Anhanguera e Bandeirantes entre São Paulo e Jundiaí, iria até a Lua e voltaria algumas vezes.
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Quatro anos depois do êxodo daquele monte de gente do JT em 1984, houve o grande retorno, os bons filhos à casa tornam. Em 1988, Rodrigo Mesquita resolveu deixar a chefia de redação do JT para refundar a Agência Estado, a agência de notícias do grupo. Chamou de volta Elói Gertel, que tinha saído do jornal na mesma época em fomos para a Afinal, para chefiar a reportagem da Rede Globo em São Paulo, e Sandro Vaia, para serem seus braços direitos, os diretores-adjuntos da nova AE. Aos três se juntaram Júlio Moreno, Hélio Campos Mello, Dirceu Martins Pio, Laerte Fernandes, Adhemar Oricchio. E eu me juntei a eles.
Foi uma das maiores revoluções que já houve no jornalismo brasileiro, aquela, capitaneada por uma entidade a que algumas pessoas chamávamos de SandrElói – raramente uma decisão, grande ou pequena, a ser referendada por Rodrigo, era aprovada por um sem a aprovação do outro.
Entre muitos grandes feitos, está o fato de que a Agência foi absolutamente inovadora na criação do primeiro serviço de informação econômica em tempo real do Brasil, o Broadcast.
Em 2000, quando o então diretor de redação do Estado, Pimenta Neves, deu dois tiros pelas costas na ex-namorada, num haras da Grande São Paulo, Sandro Vaia foi chamado para assumir o cargo. Elói Gertel foi junto. A dupla comandou o jornalão durante seis anos.
***
Quando conheci a Vera ela ainda não era Vaia, mas já namoravam. Vera e Sandro namoraram desde sempre – essa era a impressão que a gente sempre tinha.
Por uma imensa coincidência, Vera e eu fizemos vestibular para a USP – era o exame do Cescea, na época pré-Fuvest em que havia Cescem, Cescea e Mapofei – na mesma sala, no Colégio Sion da Avenida Higienópolis, em 1971. O JT na época dava grande espaço para educação, para vestibular, e publicava fotos de alunos fazendo as provas. Sandro pautou fotógrafo para ir àquela sala específica do Sion, e o belo rosto de Vera fazendo prova apareceu mais de uma vez nas páginas sobre vestibular.
Houve outras coincidências. Vera e Sandro tiveram os mesmos padrinhos de casamento que Suely e eu – Gilberto Mansur e Vivina de Assis Viana.
Nossas meninas – Giuliana e Fernanda – brincaram juntas durante fins de semana que tanto Sandro quanto eu passamos exilados em Brasília durante uma temporada de crise na Sucursal da Agência Estado lá.
As duas têm idades próximas – Fernanda é quatro anos mais velha. A Giu no entanto começou bem mais cedo, e então a Nalu tem três anos mais que Marina. Gostaria que um dia elas se conhecessem.

N.E.: Deixo aqui a escolha de uma imagem do Sandro, com uma das suas frases mais atuais.

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Vá com Deus, Sandro Vaia!!!

 

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