O caso Beatriz e a barbárie na escola

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Com apenas 7 anos e durante uma festa de formatura em uma escola de classe média, na cidade de Petrolina (PE), Beatriz Mota, filha de um professor da casa, foi assassinada com mais de 40 facadas e teve o corpo jogado atrás de um armário. Embora o crime tenha acontecido em dezembro do ano passado e ainda não tenha sido esclarecido, o caso voltou à imprensa há uma semana por uma revelação policial desnorteadora. Em entrevista coletiva, o delegado responsável pelo caso declarou que cinco funcionários da própria escola onde Beatriz foi morta e da qual seu pai era professor estão entre os sete suspeitos do crime.
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E como se essa declaração do delegado já não fosse atordoante o suficiente, foi dito mais: o crime foi premeditado e houve um mentor, um ou mais executores e outras pessoas que participaram indiretamente. Por mais que se saiba o quanto a violência é algo intrínseco à natureza humana, é da ordem do inimaginável, quando não se é versado nas artimanhas policiais e investigativas, supor que tantas pessoas sejam capazes de, simultaneamente, e em um ambiente onde todos se conhecem, juntarem-se em torno de um projeto tão cruel e perverso.
Fanatismo
Fora da Psiquiatria, do universo das psicopatias e da crônica policial, é dificílimo supor motivações que poderiam levar um ser humano a assassinar uma criança com mais de 40 estocadas de faca. E ainda há os detalhes sórdidos: durante uma festa, ao som de uma banda, dentro de uma escola e a poucos metros dos pais e de dezenas de outras famílias. Resta às pessoas comuns deixar de lado todas as hipóteses relacionadas à maldade vulgar e conjecturar somente teses cabíveis no terreno do fanatismo religioso. De outro modo, como responder a essa pergunta: como e por que um criminoso convenceria, quatro, cinco ou mais pessoas a aderirem a um plano seu, particular, cuja concretização envolvesse algo dessa magnitude, a não ser em nome de um fanatismo inominável?
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O assassinato de Beatriz é uma dessas tragédias que estampariam as primeiras páginas dos jornais se tivesse ocorrido numa metrópole. Mas não é o fato de ter ocorrido numa cidade do interior do país que impede que ele seja alinhado às fileiras de crimes bárbaros brasileiros, desses nos quais assassinos cortam suas vítimas em pedaços, as ensacam em sacos plásticos e atiram no lixo, ou enterram corpos em covas rasas em quintais ou dentro da própria casa. E se o assassinato da menina em si e os meios usados pelos responsáveis pelo ato dão ao caso relevância e dimensão para ingressar na lista de crimes bárbaros nacionais, o que dizer quando as autoridades policiais do caso apontam como suspeitos os funcionários de uma escola tradicional de uma cidade do interior?
Erro
Independentemente dos caminhos que a condução policial do caso percorra, a partir das declarações do delegado sobre os sete suspeitos do assassinato de Beatriz, um aspecto não pode ser deixado de lado por quem lembra dos cases jornalísticos da década de 90. Como acompanhar o caso Beatriz e não lembrar do caso Escola Base, a escola paulistana cujos donos e funcionários foram execrados irreversivelmente pela opinião pública após uma falsa acusação de pedofilia? Se o assassinato de Beatriz precisa ser desvendado o quanto antes, sim, todo mundo concorda. No entanto, quando se fala em suspeição contra os funcionários da escola, causa arrepio o risco de erro e de estigmatização de pessoas que podem não ter nada a ver com tamanha atrocidade. De um modo ou de outro, qualquer eu seja o desfecho, essa escola jamais será a mesma. A barbárie passou por ali e deixou sua marca.

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