Meus netos

A autora deste texto não é a jornalista, nem a escritora. Também não é a mulher de 32 anos que, sozinha, mudou de país para fazer um curso, supostamente de Corte&Costura. Não é alguém que gosta de ler, que tem opiniões políticas e as defende com entusiasmo. A autora deste texto é, apenas e simplesmente, uma avó.
avos
Tenho absoluta certeza de que todos os avós me compreenderão, pois só eles conhecem a profundidade, a ternura e a imensidão do amor que  sentimos pelos netos.
Eu tenho quatro, três rapazes e uma moça. Todos europeus. Dois italianos e dois holandeses. Eles vivem na Europa porque lá é o lugar deles. A herança, a história, o passado, a cultura, tudo, há séculos e séculos, lhes pertence. Na Europa, os ancestrais de cada um construíram o caminho que, hoje, eles pisam,  ou pisavam, confiantes.
O amor é egoísta, uterino, visceral, nasce na carne. Amor é vida na sua forma mais perfeita. Então, não quero saber quem tem razão, se um lado é bandido e o outro, vítima. Não me interessa se milhões de pessoas fugiram da guerra e sentem frio, sede, medo ou fome. Não estou nem aí se os outros milhões tem algum tipo de dívida a pagar. Absolutamente nada me interessa, só os meus netos.
Dane-se quem me criticar. Desejo a estas pessoas que, um dia, elas tenham o privilégio de ser avó para compreender a minha emoção.
Refiro-me, claro, aos atentados ocorridos em Munique na semana passada. Foram três. O primeiro dentro do metrô, onde um louco, com um machado,  atacou os passageiros. Outro, na madrugada de anteontem. Um homem se explodiu diante de um restaurante. Felizmente, ele foi a única vítima fatal, apesar dos 14 feridos graves que deixou. Finalmente, o atentado de sexta-feira, dia 22/7, com nove mortos.
Meus netos italianos moram em Munique. Ela trabalha, é tatuadora. Ele estuda hotelaria. Minha neta costuma frequentar o shopping onde aconteceu o tiroteio. Não sei explicar o que senti quando soube da notícia. Ligava sem parar para os celulares deles e as chamadas caíam em caixa postal. Mantive a calma porque fui ensinada a mantê-la. Mas, por dentro, eu quase morri.
Até que, assustada, pedi socorro a uma amiga, que finalmente conseguiu contactá-los. Os dois estavam em segurança. Quis agradecer a ela, mas minha voz não saiu. Fiquei afônica.
Minha querida amiga, sempre lhe serei grata.
Não tenho a menor ideia de como a Europa resolverá a incomensurável enrascada em que se meteu. Mas reivindico o direito de os meus jovens, belos e felizes netos europeus viverem em paz.  Eles são privilegiados por obra do acaso, não pediram para nascer no mundo civilizado.
Meus meninos não devem nada a ninguém e eu não pretendo passar os dias que me restam preocupada com o que um fanático possa lhes fazer.
A Europa precisa  parar  de fingir que tudo está sob controle. Não está.
Não enquanto os meus netos – e os netos de milhões de outros avós – estiverem ameaçados.
É urgente, algo precisa ser feito.

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