Le grand chef

 
Sem saber o que comia, provei enguia. Adorei o gosto, mas fiquei chocada ao saber que acabara de engolir pedaços de uma cobra que  rasteja no fundo do mar. A enguia é tão estranha que despertou a atenção até de Aristóteles, o filósofo grego. Para complicar mais a minha digestão, informaram-me, ainda à mesa de jantar, que Aristóteles considerava as enguias “vermes que nascem no lodo”. Nojo perde.
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Mas gostei do sabor, fazer o quê? Simples, vencer o preconceito e, na primeira oportunidade, comprar o peixe-cobra e tentar fazê-lo ao jeito lusitano. Elas são feias – e a feijoada pode ser chamada de bonita? –, mas o paladar compensa.
Minha conselheira em assuntos gastronômicos, mestre-cuca de mão cheia, ensinou-me o básico para a minha enguia ficar igual à dela, estalando de gostosa:
1) Comprar a enguia viva.
2) Colocar num recipiente com bastante água e adicionar algumas gotas de vinagre para retirar a lama da pele.
3) Deste ponto em diante, prepará-la normalmente.
Arghhh, deve estar todo mundo torcendo o nariz. Eu mesma fiquei nauseada. Mas ando entusiasmada com as minhas aventuras no maravilhoso Portugal. Então, para me sentir ainda mais em casa, lá fui eu, na semana passada, com jeitão de quem cozinha enguias desde a mais tenra idade, até o mercado de Matosinhos, famoso pela qualidade dos peixes que vende.
Sentindo-me o máximo, comprei logo duas, que vieram se mexendo num saco plástico. Meio filme de terror, mas ninguém parou para olhar. Graças a Deus.
Em casa, enchi uma bacia, coloquei-a em cima da pia e comecei a tarefa de prepará-las. Então, a coisa complicou.
Virei a sacola, as enguias caíram na água e eu joguei o vinagre. Um senhor esguicho de vinagre. Coitadas das enguias. Imediatamente, elas começaram a se contorcer, contorcer e acabaram dando um salto mortal.  Estatelaram-se, ambas, no piso da cozinha. Uma para um lado, a outra para o outro.
Em pânico, sai correndo. De uma fresta da porta assisti, em lágrimas, um espetáculo de horror. As bichinhas não paravam de se revirar. Pensei em chamar a vizinha para dar cabo delas e acabar com a tortura. Mas, em meu prédio, sou apenas uma brasileira que estuda Corte e Costura. Não podia, subitamente, revelar-me uma torturadora de animais indefesos.
Quanto mais as cobras pulavam, mais eu chorava. A sessão Torquemada durou longos minutos. Finalmente, as duas sossegaram. Dei um prazo de segurança, pedi perdão a Deus pela maldade que fizera, enxuguei o rosto e, vagarosamente, entrei na cozinha. As enguias estavam esticadas, mortinhas da silva.
Decidi não comê-las, sentia-me péssima. Peguei o saco em que as havia trazido, segurei a primeira pelo rabo e coloquei dentro. Iriam para o lixo com as minhas mais sinceras orações. Nunca me imaginei maltratando um ser vivente.
Quando fui pegar a segunda, ela deu um salto e resvalou no meu braço. Apavorada, pulei para trás e entrei com a cabeça na porta do armário, que deixara aberta após retirar o vinagre. Tonta, quase caí sobre a enguia agonizante. Mas mantive a lucidez de não esmagá-la. Com uma agilidade inesperada, desviei-me da infeliz antes de desabar no chão. Ficamos deitadas lado a lado. A enguia e eu.
Quando vi o sangue correr – sangue meu, claro, a enguia, apesar de tanta desgraça, não estava ferida; aliás, nem sei se enguia tem sangue -, entreguei os pontos. Pedi socorro à vizinha, que, a princípio nada entendeu:
– Meu Deus, a enguia lhe atacou? Nunca ouvi contar.
Soluçando, respondi:
– Não, ela morreu. Olhaaaa só, coitadinha da enguia…
A vizinha   arregalou os olhos:
– A senhora tinha uma enguia de estimação?
Consegui relatar o drama enquanto ela estancava o sangue da minha cabeça e chamava a outra vizinha. Uma me levou a hospital, a outra ficou cuidando das enguias, que, declarei antes de sair, não queria mais ver. Jamais comeria criaturas que maltratara tão selvagemente.
Voltei para casa com três pontos na testa e dor no corpo inteiro. Muita emoção. Amorosas, as minhas vizinhas: encontrei a cozinha arrumadinha, nada fora do lugar e um bilhete sem misericórdia: “a senhora usou vinagre demais”.
À noite, uma das socorristas bateu à porta com um pequeno pirex na mão. Queria saber como eu estava passando e me trazer um pouquinho das enguias que, segundo ela, estavam deliciosas.
Desmaiei.
 

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