De cuspe a Deus, teve de tudo na votação do Impeachment

wyllys-bolsonaroFoto Google

Além de a votação da admissibilidade de um processo de impeachment contra a presidente da República já ser, em si, um fato histórico com robustez suficiente para atrair todo um país para a sua transmissão, o Brasil teve e terá outros motivos para lembrar, por décadas e décadas, as cenas transmitidas para o mundo no último domingo pela TV Câmara.
Se, por um lado, a população tem o direito e a razão de estar assombrada com as espécimes esquisitonas que se sucederam no microfone da Câmara, atendendo ao chamado do inominável Eduardo Cunha para dizer sim ou não ao impeachment, por outro, cabe uma pergunta típica de advogado do diabo: por que tanta surpresa com os tipos que desfilaram diante do microfone da Câmara?
Quem ficou horrorizado com o que viu, da aparência tosca às falas surreais, invocando Deus e até o papagaio da família, parece supor que aqueles tipos destoam da cara, do caráter ou do comportamento do povo brasileiro. Que aquilo só pode ser fruto de geração espontânea, algo fenomenológico que ocorre lá pelas bandas do Cerrado, justo onde Juscelino Kubitscheck decidiu construir Brasília.
Portador não merece pancada e o problema da paisagem não está na janela. Gostemos ou não, aqueles tipos estranhos, que fazem o Coronel Saruê de Antônio Fagundes parecer contido e cool, são exatamente a cara do Brasil. Foram, literalmente, exportados para Brasília pelo povo brasileiro.
CRINA DE CAVALO
Diante do espanto com o show de horrores e histrionices visto domingo, manifestado na esfera pública virtual, nas mesas de botecos, nos bancos escolares e nas alcovas de todos os estratos sociais, ficou uma sensação rara de que o verso de Caetano Veloso não se aplica a algumas coisas.
Definitivamente não se aplica à relação entre a Câmara Federal e o povo brasileiro: Narciso acha feio o que é espelho. Além das lições políticas que todo esse processo deixa, para os ganhadores e os derrotados, também se aprendeu muito sobre hipocrisia, estética, religião e família.
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Foi preciso uma sessão de votação de impeachment para o brasileiro descobrir que é tendência entre os seus representantes os implantes malsucedidos de cabelo, assim como os tons acaju e a textura dos fios a la crina de cavalo sintética. Foi preciso Janaína Pascoal, a musa da República da Cobra, entrar para a história do país pedindo o impeachment de Dilma para que o eleitorado brasileiro descobrisse o quanto os deputados brasileiros são religiosos, tementes a Deus e o quanto prezam os valores familiares.
Como uma garota de programa foi filmada recentemente fazendo saliências com alguém da casa, vossas excelências aproveitaram o microfone da Câmara para renovar os votos matrimoniais com suas consortes oficias. Ah, e algo que precisa ser registrado: na votação, Tiririca, em seu segundo mandato, usou pela primeira vez o microfone da Câmara. Ou seja, pior que está, fica, sim.
TORTURADOR
O jornalismo enxerga tudo, mas é ligeiro demais para se deter em detalhes que só a história escancara. O que foi aquela cena de Jair Bolsonaro invocando seu ídolo maior, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos maiores, mais cruéis e mais perversos torturadores do regime militar brasileiro, e a quem o deputado dedicou seu voto? Somente numa republiqueta latina, que nunca se deu ao trabalho de fazer a revisão de seus anos de chumbo e tortura, para um homem com mandato homenagear um torturador na casa de representantes do povo e ficar por isso mesmo.
Só os próximos e o próprio Jean Willys devem saber o naipe das coisas que Bolsonaro lhe disse como insulto, durante a votação, para que, como revide, recebesse uma bola de cuspe em sua direção.
E somente com a cantilena divina foi possível espalhar para o mundo o que já sabemos de nós mesmos: somos uma piada pronta. O jornal espanhol El País, em sua versão brasileira, diagnosticou com precisão o resultado do impeachment, usando como métrica a invocação de Deus pelos deputados: “Deus derruba a presidenta do Brasil”.

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