Beleza e tragédia divididas pelo vidro do carro

No mesmo instante em que o ex-presidente e atualmente senador Fernando Collor de Mello fazia o encaminhamento do seu voto no processo de admissibilidade do impeachment da presidente Dilma Rousseff, no Senado, centenas de pessoas se punham a comentar, a maioria de modo elogioso, uma foto então postada em uma rede social de fotografias por uma estilista paulistana famosa por vestir celebridades televisivas. A estilista descrevia como sendo uma das fotografias mais lindas que ela já vira, um flagrante que circulou de modo quase viral na web no Natal de 2015.
A postagem convidava os seguidores da moça a olhar sempre além, a ampliar a visão, de modo a enxergar a beleza da vida, tudo concluído com hashtags do tipo #avidaémara. Na fotografia, um menino negro, criança, aparece sorrindo, sem camisa e com duas bolinhas de tênis nas mãos e com o rosto colado ao vidro de um carro no trânsito da cidade de São Paulo. Dentro do carro, sentada no colo de uma mulher da qual só se vê as pernas, ambas no banco de trás, uma menininha com menos de 1  ano, vestida num roupão de banho cor de rosa, retribui com um sorriso o riso aberto do menino colado ao vidro do carro.
NINGUÉM É INOCENTE
Fica subentendido que a estilista convoca seus seguidores a olhar a beleza que existe nas coisas, certamente referindo-se ao sorriso inocente da bebê diante de um menino colado no vidro, diferente do modo como agem os adultos, trancados em seus carros e geralmente assustados diante de qualquer aproximação de pedestre, seja criança ou adulto. O convite é para que todos sempre olhem além, que tenham um olhar positivo, que vejam a vida com a pureza da bebê que sorri de dentro do carro. Infelizmente, como no título do livro de Ferréz, ‘ninguém é inocente em São Paulo’. Só os bebês. Como o diabo mora nos detalhes, o convite que legenda a fotografia tropeça em si mesmo, pois olhar além é mais que um pedido de mão dupla. Vai literalmente além e leva quem segue o enunciado a infinitas perspectivas. Olhar além não se limita a emocionar-se com os bons sentimentos e concordar com quem interpela seus interlocutores para enxergar a beleza do sorriso da criança no conforto e segurança do carro da família. O convite leva, também, para o avesso do que propõe: revela o abismo que separa as duas crianças da fotografia, o grand canyon abismal no qual cabe toda a tragédia social brasileira.
BRASIL PARTIDO
Correio2016fotogaroto
O encontro, tão somente visual, impedido que é de se completar pelo vidro do carro, se dá entre duas crianças cujos futuros parecem ter sido traçados na maternidade, como cantou Cazuza: uma bebê que parece voltar de uma sessão de lazer ou de uma aula de natação, coisas comuns em seu meio desde os primeiros meses de vida, e um menino negro com duas bolinhas de tênis, usadas, aparentemente, não para serem atingidas por uma raquete numa aula num clube ali perto, mas provavelmente para fazer malabares no trânsito e ganhar o que pode ser parte do sustento da família. A imagem é o simbolismo perfeito do Brasil partido.
Convidar a olhar além para o que se vê, no sentido de enxergar sempre o bom da vida, usando a fotografia do encontro infantil mediado pelo carro hermeticamente fechado, é um convite ambíguo. A hashtag #avidaémara já se desmonta com uma mera pergunta: maravilhosa para quem? Para o menino do lado de fora do carro é que não é. Olhar além é um convite que denuncia a desigualdade social brasileira e a tragédia que determina um futuro sombrio para milhões de crianças que colam seus corpos nos carros nos sinais de trânsito. Ver Collor lendo um texto escrito há 24 anos, favorável ao seu impeachment, e aplicando-o ao momento atual, ao mesmo tempo em que se lê o convite da estilista bacana para ver a beleza que existe na criança sorridente que depende da caridade alheia traduz a repetição do destino trágico que parece acometer este país.

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