A realidade engoliu a ficção e atingiu a cadela

Quem disse que não se pode, deve ou que não é recomendável falar pensamento? Estamos vivendo tempos em que quem sempre teve algum pudor de falar pensamento agora solta o verbo sem freios. O país parece viver nos últimos tempos assombrando e assombrado por pensamentos falados que vêm à tona, sacodem a vida econômica e, de lambuja, não deixam pedra sobre pedra sobre a vida política e as instituições e se alastram sobre a saúde das relações sociais, que parecem estar se resumindo a ringues reais e virtuais.
No contexto de semanas em que vieram a público pensamentos indizíveis ditos em circunstâncias privadas e protagonizadas pelos principais atores da cena política nacional, via conteúdos de telefonemas grampeados, mais do que nunca multidões enfurecidas, dos dois lados, parecem responder com um potente e amplificado sim à pergunta que fazem a si mesmas, sem se dar tempo para qualquer reflexão: por que eu não devo falar meus pensamentos, mesmo que sejam ofensivos, mesmo que mostrem minha face mais bárbara e intolerante, mesmo que seja publicamente?
E, uma vez respondendo sim, todo mundo parece estar disposto a sair por aí dizendo o que pensa, indiferente às consequências, fiel apenas à convicção de desqualificar quem pensa de modo contrário. E por que não o fazer, em tempos em que há esses megafones disponíveis para todos, as redes sociais?
BICHAS
Uma vez aderindo-se à tese do “penso, logo falo”, esta é aplicada a tudo e a qualquer coisa e a qualquer um. Com a mesma naturalidade sem cerimônia com que o autor da novela do horário mais nobre, na véspera de entregá-la ao público, anuncia que odeia “história de bicha”, logo em seguida, parte do público, bichas incluídas ou não, reagiu de dentes cerrados a algo surreal, em se tratando de uma obra de ficção: é um absurdo contra a cultura brasileira, contra a importância do rio Paraguaçu e a população do Recôncavo usá-las como tema, cenário e referência de uma novela chamada Velho Chico.
Dizem com a pompa e circunstâncias dos interpretadores da cultura nacional que isso é uma enganação ao telespectador, já que o rio da novela não é o São Francisco e nem aqueles modos, falas e gentes são nem dos ribeirinhos nem do povo do Recôncavo. Como assim?
Ninguém sabe ou ninguém quer diferenciar um documentário de uma obra ficcional? Sendo uma obra de ficção, deve ser cobrada uma fidedignidade em relação ao real, sobretudo quando se trata de um cenário? Nesse fluxo em que os brasileiros estão embriagados de raiva e parecem embalados por uma roda gigante desgovernada, ao sabor de fatos descontrolados que não dão sinais de mansidão a curto prazo, um ator mineiro, Cláudio Botelho, resolve, em pleno espetáculo, em Belo Horizonte, inserir no texto cênico cacos em que pede cadeia para Lula e chama Dilma Rousseff de ladra.
CADELA
Tão livre quanto Botelho sentiu-se para o improviso político, parte da plateia reagiu com vaias e palavras de ordem. O espetáculo foi interrompido, mas a insanidade no manicômio Brasil, não. O ator reagiu dizendo não admitir, em tom de xingamento, que um negro interrompesse sua peça, referindo-se a um dos espectadores.
A guerrilha de falas arrodeadas de labaredas migrou para o teatro do absurdo em que se tornaram as redes sociais, as ruas e as listas de comentários na imprensa, onde prevalece o céu da hostilidade, agora extensiva até a animais domésticos que usam acessórios vermelhos, como noticiou o jornal O Globo, referindo-se a uma cadela carioca escorraçada do seu passeio corriqueiro na praça por usar como acessório um lenço vermelho no pescoço, logo identificado como o crachá de petralha do animal. Jamais houve obra de ficção que apostasse em tamanho despautério.

velho-chico

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