A Deusa descalça e o cinismo da lama

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A cultura dos memes é genial e responsável por, frequentemente, desopilar o fígado de muita gente que, em dias ou momentos de estresse, é premiada com o recebimento, via alguma rede social, de um deles desconstruindo algo que o jornalismo não pode abordar senão com a sobriedade que a cultura noticiosa minimamente séria ainda exige.
Entre os melhores memes pós-carnaval estavam os  que ironizavam o fato de Maria Bethânia ter, literalmente, sambado, no carnaval carioca, na cara das barbies de botox, anabolizantes e silicone que fazem a festa das escolas de samba do Rio, desde que peitos, bundas, barrigas, coxas e cabelos naturais foram empurrados para os fundos da moda.
Como propagam os próprios memes, não tem preço ver Bethânia descalça, com sua cabeleira selvagem ao vento, seus peitos livres quase setentões, divando e mitando na cara das meninas construídas nas oficinas de músculos, com suas bolhas de sangue nos pés causadas por aqueles sapatos de gladiadoras cujos saltos só não são mais altos que o tríplex sem dono do Guarujá.,
O ano pós-carnaval começou, portanto, com as imagens esvoaçantes de Maria Bethânia resplandecente em verde e rosa da tela da TV, a cada vez que se falava da vitória da Mangueira, cujo samba-enredo teve como tema nesse carnaval a cantora baiana e seus 50 anos de carreira. Nunca foi tão belo e verdadeiros o verso título da canção de Caetano, o irmão: Mangueira, onde o Rio é mais baiano.
LUTO CÍNICO
Recentemente, numa entrevista ao jornalista Roberto D’Ávila, o poeta maranhense Ferreira Gullar sentenciou: a arte existe porque a vida não basta. Bethânia e seu estranhamento mítico e quase atávico aos holofotes gratuitos era a mais pura arte abastecendo a vida que não nos basta, no alto de um carro de escola de samba, praticamente um mastodonte diante da sutileza de sua persona reservada fora dos espaços fechados de palcos e teatros.
Beleza é palavra pequena para a homenagem, a sua execução na Sapucaí, a visão do desfile da Mangueira e a alegria da filha de dona Canô, num espaço até então improvável e, sobretudo, com a vitória da escola.
Mas a vida, essa que não nos basta e nos deixa carentes e famintos de arte, resolveu dar as caras, e sem nenhum pudor e constrangimento, no mesmo fragmento de tempo em que Maria Bethânia contava ao país o medo que sentiu ao encarar o desafio de um carro alegórico numa escola de samba.
No intervalo da última edição do Fantástico, programa ao qual Bethânia deu a primeira entrevista televisiva sobre sua experiência como estrela na Sapucaí, o telespectador, se não teve a sorte de usar o controle remoto ou levantar para um copo d’água, viu, entre a estupefação, a surpresa ou alguma náusea, a estreia de uma das campanhas publicitárias mais polêmicas ou paradoxais, para dizer o mínimo, já veiculadas neste país.
Uma peça autêntica do quanto a publicidade, mesmo usando toneladas de talento, sabe produzir o que pode ser chamado de luto cínico.
ARCA DE NOÉ
Depois de mais de três meses impregnando a consciência, a revolta, o luto e o imaginário da população brasileira e parte da mundial, sem exagero, a Samarco, a mineradora responsável pela tragédia em Mariana, Minas Gerais, resolveu gastar uns milhões para produzir uma peça publicitária e veiculá-la num dos horários mais nobres e caros da televisão brasileira, o intervalo do Fantástico. Intitulada
“É sempre bom olhar para todos os lados”, a peça publicitária tem como propósito ser uma espécie de resposta à tragédia que, em novembro, matou 19 pessoas, deixou algumas até hoje desaparecidas e varreu do mapa distritos, vilas e vilarejos, coroando esse apocalipse, sem Arca de Noé, com a morte de hordas de espécies animais e vegetais, enlameando até o Oceano Atlântico, onde o Rio Doce desaguou lama tóxica como um animal forte expelindo sangue quando atingido na jugular.
Quem não viu a peça, vá à web e veja com que tipo de sabão se lava a imagem de uma empresa coberta de lama.

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