Vai melhorar (8). Mas…

sergio-palacioFoto: Arquivo Google

O país está em compasso de espera, no modo pausa. Por Sérgio Vaz
Nos últimos dias, surgiram mais boas notícias sobre a economia brasileira – assim como vem acontecendo já há uns dois meses, desde que Dilma e o PT foram afastados do Palácio do Planalto. Boas notícias, ou, no mínimo, no mínimo, bons sinais, bons indicativos.
Esta é a oitava compilação que publico aqui de boas notícias, ou, no mínimo, sinais, indicativos de que as coisas vão melhorar.
Ao mesmo tempo, no entanto, os jornais noticiaram nos últimos dias – assim como vem acontecendo no mínimo há um mês – que o governo do presidente interino Michel Temer fez mais esta ou aquela concessão, aqui e ali, para não desagradar os governadores, os deputados, os senadores, os lobbies do funcionalismo público, os lobbies do Judiciário, etc, etc, etc.
“Voto de confiança no governo pode não resistir por muito tempo”, informou O Globo nesta quinta, dia 4. “Concessões no ajuste preocupam mercado, que espera conclusão de impeachment”, diz a linha fina embaixo do título, o olhinho.
É isso, é exatamente isso. Há que ter pressa para reverter a rota, para que a economia pare de cair cada vez mais fundo no poço em que os 13 anos de irresponsabilidade do lulo-petismo a enfiou – mas o país parece paralisado. Em compasso de espera. Como se tivessem apertado a tecla de pausa.
O tempo vai passando, a expectativa positiva dos agentes econômicos pode começar a se esvair, pode já estar começando a se esvair, como parecem já estar começando a se esvair a boa vontade dos nossos grandes jornalistas de Economia – mas está tudo, ou quase tudo, parado, pausado, em compasso de espera, até o dia 25, ou então 29, quando enfim começará o julgamento final do processo de impeachment. Que pode acabar em algum dia do início de setembro, não se sabe ainda qual.
As indicações são de que o impeachment será aprovado – mas são indicações. Falta o fato, o preto no branco.
Ainda existe a possibilidade – cruz credo, mangalô treis vez, vade retro, Satanás, te esconjuro, ô demo – de Dilma Rousseff voltar, e aí seria o pior do pior do pior de todos os mundos, o caos, o armagedom.
Quando começar a reunião do G-20, na China, no dia 2 de setembro, Dilma Rousseff terá ainda chances de voltar à Presidência? Ou Michel Temer já será o presidente da República de fato e de todo direito, com dois anos e quatro meses pela frente para, com seu Dream Team da economia, começar de fato a melhorar as coisas?
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Boas notícias – ou, no mínimo, bons sinais, bons indicativos, que os jornais noticiaram nos últimos dias:
* A produção da indústria de bens de capital – máquinas e equipamentos – avançou 2,1% em junho contra maio, segundo dados do IBGE. É a sexta alta seguida.
A intensidade da queda em relação ao ano anterior vem se reduzindo. Em alguns segmentos da indústria, já há variação positiva frente a 2015.
* O Índice de Confiança da Construção (ICST), levantado pela Fundação Getúlio Vargas, avançou 2,7 pontos em julho, em relação a junho. Com isso, o Índice chegou a 70,7 pontos, o maior nível desde agosto de 2015.
“As indicações de retomada de obras paradas e de novas contratações nos programas governamentais, assim como as perspectivas positivas para a economia, reduziram o pessimismo setorial”, disse Ana Maria Castelo, coordenadora da FGV/Ibre.
* A balança comercial teve o melhor resultado para um mês de julho desde 2006. As importações caíram que as exportações, e a balança teve saldo positivo de US$ 4,57 bilhões. No acumulado do ano, o superávit é de US$ 28,2 bilhões.
A boa notícia – como praticamente todas as dos últimos meses, desde o afastamento de Dilma Rousseff – tem seu lado ruim: o comércio exterior brasileiro ainda não foi capaz de aumentar as receitas de exportações. O superávit vem porque a queda nas importações é ainda maior que das exportações.
* Após mais de 15 anos de negociações, Brasil e Estados Unidos finalmente chegaram a um acordo que abre o mercado americano  para a carne bovina in natura brasileira. A expectativa é de que a liberação permita um acréscimo em torno de US$ 900 milhões nas exportações de carne brasileira para os Estados Unidos. Os embarques devem começar em 90 dias.
* Uma boa notícia para a Petrobrás, a estatal que o lulo-petismo praticamente destruiu, e portanto precisa desesperadamente de boas notícias: há quatro empresas que se mostram interessadas em disputar a Liquigás, a subsidiária que a grande estatal pretende vender. O negócio pode vir a render até R$ 2,5 bilhões para o caixa da Petrobrás.
* Menos demissões em relação aos meses anteriores, e confiança maior, são bons sinais para a economia brasileira. Especialistas acreditam que a conclusão do processo de impeachment dará mais fôlego à economia.
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As cinco primeiras dessas notícias transcritas acima são factuais, são baseadas em números. Não há como questionar.
Quanto à sexta e última delas, mais genérica, mostra a conclusão de uma reportagem publicada em O Globo de domingo, dia 31 de julho.
O texto da reportagem vai transcrito abaixo. Depois dela, vão dois editoriais do Estadão em que são analisados os números que indicam que a indústria começa a reagir.
Menos demissões e confianças maior sinalizam retomada
Reportagem de Geralda Doca e Martha Beck, O Globo, 31/7/2016.
Menos demissões e mais confiança, associados a uma redução das taxas de juros futuros, sinalizam que o pior da crise econômica já pode ter passado. Economistas e integrantes do governo ouvidos pelo Globo afirmam que os sinais são acanhados, mas animadores, e tendem a melhorar a partir da conclusão do processo de impeachment da presidente afastada, Dilma Rousseff. Isso porque haverá mais estabilidade política para atrair investidores que hoje estão em compasso de espera para apostar no Brasil.
— No primeiro trimestre de 2016, era comum ouvir do mercado que as coisas no Brasil ainda iriam piorar muito antes de melhorar. Os economistas ainda buscavam o fundo do poço. Havia uma sensação de que o mundo iria acabar, o que deixava as pessoas e as empresas na defensiva. Agora, o sinal mudou — afirmou um integrante do Ministério da Fazenda.
Tanto que, embora o governo projete para 2017 um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 1,2%, os técnicos, reservadamente, afirmam que o número será maior:
— Fizemos uma projeção prudente para 2017, de crescimento de 1,2%, mas possivelmente vamos rever esse número para cima nos próximos meses. Ao longo do tempo, a incerteza política vai diminuindo — disse o interlocutor da Fazenda.
Alívio nos números: receitas federais começaram a cair menos
Para a fonte, um sinal importante veio do mercado formal de trabalho. No segundo trimestre de 2016 foram registradas 100 mil demissões a menos do que em 2015. Somente na indústria, o saldo de desligamentos foi de 68.246 entre abril e junho deste ano. No mesmo período de 2015, ele havia atingido a marca de quase 180 mil.
— Foi uma diminuição muito importante — afirmou Rodolfo Torelly, do site especializado Trabalho Hoje.
Outros setores já registram geração de empregos, como agropecuária, serviços médicos e odontológicos e administração pública. Segundo dados do Ministério do Trabalho, no segundo trimestre deste ano foram criados 20 mil postos a mais que no mesmo período de 2015.
Outro sinal de maior otimismo foi o índice de confiança dos consumidores, da Fundação Getulio Vargas (FGV). Depois de atingir o pior patamar histórico em abril, ele avançou para 71,3 pontos em junho, atingindo 76,7 pontos em julho.
— O dado mostra que o empresário está disposto a voltar a investir, e isso é importante, porque na construção civil o ciclo é de longo prazo — explicou o economista da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), Luís Fernando Mendes.
Melhora no ambiente: com cenário mais favorável, cresce projeção de investimentos
A reversão de expectativas também se refletiu no mercado imobiliário. Operações de crédito com recursos da poupança subiram 9,5% entre maio e junho, com perspectiva de retomada de lançamentos nos próximos semestres.
Embora o governo trabalhe com um rombo recorde nas contas públicas de 2016, os indicadores fiscais brasileiros também reagiram. A arrecadação federal, por exemplo, continuou caindo em junho, mas o ritmo se estabilizou. Segundo os técnicos, isso é um sinal positivo. Nos últimos três meses, as receitas vêm caindo em torno de 7%, mas isso tende a se reverter gradualmente.
O economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas, afirma que o aumento dos índices de confiança e a queda das taxas de juros futuros — um sinal de que os investidores apostam na redução da Selic e na retomada no PIB — são demonstrações importantes de uma virada.
— Vai ser nesse momento (em que o BC baixar a Selic) que a retomada será efetiva — disse Freitas. — Eu acredito que essa retomada mais concreta se dará na virada deste ano para 2017.
José Roberto Afonso, pesquisador do Ibre/FGV, alertou que o país ainda levará tempo para voltar aos patamares de dois, três anos atrás:
— Há sinais de melhora, até porque a base de comparação era muito ruim. Digamos que, em dois anos, você tomou um tombo numa escada de uns dez degraus. Mas este ano você caiu só dois degraus. Sem dúvida, ficou menos pior. Mas o fato é que você continua escada abaixo, cada vez mais longe de onde você partiu.
Para a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, “o paciente ainda está na UTI”. Mas ela espera melhora do cenário econômico com a conclusão do processo de impeachment.
Exportação industrial já começa a reagir
Editorial econômico, Estadão, 31/7/2016.
Recentes dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostram que, nos últimos 12 meses terminados em maio, o Coeficiente de Exportação – indicador que revela a participação das vendas externas no valor da produção da indústria de transformação – ficou em 15,8%, a preços constantes, ante 14,2% no mesmo período de 2015. Segundo a economista da CNI Samantha Cunha, isso reflete o crescimento das quantidades exportadas pela indústria de transformação.
Já se vinha notando uma reação mais forte da exportação brasileira de manufaturados pelas estatísticas oficiais. De janeiro a maio, as vendas externas de manufaturados somaram US$ 28,118 bilhões, um acréscimo em valor de 0,6%, pela média diária, em relação ao mesmo período do ano anterior.
O avanço parece modesto, mas o fato de as vendas externas de produtos industrializados terem deixado de cair pode representar uma virada. Note-se que as exportações de manufaturados foram a única categoria da pauta brasileira que cresceu em valor no período janeiro-maio, já que caíram as receitas das commodities (-4,1%) e dos semimanufaturados (-2,6%) com a baixa de cotações internacionais.
A desvalorização do real foi um fator decisivo para a mudança de orientação de muitas indústrias, antes voltadas praticamente só para o mercado interno e que tiveram de adaptar-se a novas circunstâncias, abrir mercados no exterior, o que naturalmente exigiu tempo. Essa etapa de transição parece estar sendo superada.
A CNI também informa que o Coeficiente de Penetração de Importações recuou de 17,2% para 16,5% no período considerado. Isso se refere às importações em geral, em desaceleração consistente com o desaquecimento da economia.
Também relevante, o Coeficiente de Insumos Industriais Importados caiu de 24,6% para 23,6% nos 12 meses terminados em maio. A substituição de insumos importados, que encareceram com a desvalorização cambial, é um processo lento e varia de empresa para empresa, tendendo a ser menor naquelas que agregam mais tecnologia.
A manutenção da tendência de crescimento da exportação de manufaturados dependerá muito do câmbio, mas não só disso. As indústrias nacionais terão de contar com financiamento adequado e mostrar que são capazes de enfrentar um mercado internacional ferozmente competitivo.
A indústria reage
Editorial, Estadão, 3/8/2016.
As melhores notícias da economia, num ambiente ainda marcado pela recessão e pelo desemprego elevado, têm sido os sinais de recuperação da indústria, o setor mais importante por seus efeitos sobre o conjunto da atividade. A produção industrial de junho foi 1,1% maior que a de maio, no quarto aumento mensal consecutivo. Além disso, pela primeira vez no ano tiveram variação positiva todas as grandes categorias – bens de capital, bens intermediários e bens de consumo de todos os tipos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar da melhora, o caminho da recuperação ainda será longo e o ritmo dependerá da confiança de empresários e consumidores e, naturalmente, das condições políticas. A conclusão do processo de impeachment, com o afastamento definitivo da presidente Dilma Rousseff, é um pressuposto de todas as projeções mais otimistas.
Depois de quatro meses de melhora, com avanço acumulado de 3,5%, a produção da indústria geral ainda foi, em junho, 6% inferior à de um ano antes. O volume fabricado no primeiro semestre ficou 9,1% abaixo do contabilizado no período de janeiro a junho de 2015. Em 12 meses a queda ficou em 9,8%.
A maior perda acumulada ainda é a dos fabricantes de bens de capital (máquinas e equipamentos), segmento especialmente importante porque dele depende o crescimento – ou, no mínimo, a manutenção – da capacidade produtiva das empresas. Esse foi o único ramo com expansão ao longo de todo o semestre, mas, apesar disso, o volume de sua produção, em junho, ainda foi 3,6% menor que o de um ano antes, com redução acumulada de 26,2% em 12 meses.
Mesmo depois de meses seguidos de reativação, a produção geral da indústria continuou 18,4% menor que a de junho de 2013, quando foi alcançado o último pico. A de bens de capital permaneceu, em junho, 41,3% abaixo do ponto alcançado em setembro daquele ano. Este número dá uma boa ideia de como o ambiente e a confiança do empresariado se deterioraram já no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. Em 2014, quando a economia cresceu apenas 0,1% e a indústria recuou 3%, as condições da recessão já estavam muito bem caracterizadas.
Não bastará, portanto, cobrir a distância até o nível de produção do ano passado para a indústria retomar um padrão normal de atividade. O setor definhou muito mais do que mostra a comparação dos números deste ano com os de 2015. Os danos causados pelos erros e atos irresponsáveis da administração petista, especialmente da última, só serão sanados depois de longa recuperação e de muito investimento em ampliação e modernização da capacidade produtiva.
Alguns empresários ainda reclamam, estranhamente, a manutenção dos incentivos e benefícios dos últimos anos, como se ignorassem o custoso e escandaloso fracasso da política de favores e protecionismo.
A recessão, especialmente severa na indústria, é consequência dessa estratégia, voltada mais para o benefício e conforto de grupos e setores eleitos como favoritos da corte do que para a eficiência, a integração global e a capacidade de competir e de gerar empregos produtivos. A recuperação do setor e a construção de uma indústria competitiva dependerão de uma inversão das políticas implantadas em 2003, quando se levantaram em Brasília as bandeiras do populismo e do terceiro-mundismo. Mas a confiança retorna.
Por exemplo, no setor automobilístico, um dos mais atingidos pela crise, as boas notícias começam a acumular-se. De junho para julho as vendas de veículos novos aumentaram 5,59%, segundo a Fenabrave, a federação das distribuidoras. Em sete meses, no entanto, o total vendido ainda foi 24,68% menor que o de um ano antes. Mas “o pior já passou”, disse o presidente da entidade, Alarico Assumpção Filho. Essa convicção se deve principalmente, acrescentou, à expectativa de afastamento definitivo da presidente Dilma Rousseff. É uma boa aposta. O fim de um mau governo deverá ser um bom recomeço para o País.

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