Tom Jobim sofreu no Brasil, que cultua o fracasso e detesta o sucesso

Nos EUA era cultuado como um compositor vitorioso. Foi quando criou uma frase imortal: “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”.

Fonte: Google Imagens – Letras (meramente ilustrativa)

Estou escrevendo um musical sobre Tom Jobim e a melhor parte é a dificuldade de escolher só 30 canções no seu repertório maravilhoso para serem cantadas e dançadas no espetáculo. E a mais difícil é encontrar conflitos e antagonismos na sua vida luminosa: sem eles não há dramaturgia, não há teatro. Todo mundo gostava dele, não só pela música, mas pela inteligência, pelo cavalheirismo e humor. Sua carreira não tem conflitos nem altos e baixos, é uma sucessão interminável de sucessos e clássicos, no Brasil e no exterior. Foi parceiro de Vinicius de Moraes e Chico Buarque, e também um grande letrista. E, além de tudo, nos seus anos dourados, foi o homem mais bonito de sua geração.

Tive o privilégio de conviver com ele, de ouvi-lo cantar e tocar, de rir com as suas piadas, de ouvir suas queixas. E concluí que o seu grande antagonista foi o Brasil — que era justamente a sua grande paixão, expressa em toda sua obra.

O filme francês “Orfeu negro”, baseado no musical de Tom e Vinicius, ganhou a Palma de Ouro em Cannes (em 1959) e o Oscar de filme estrangeiro (em 1960) e lançou a bossa nova para o mundo. E foi esculachado no Brasil.

Em 1965, “The girl from Ipanema”, com João Gilberto, Stan Getz e Astrud Gilberto, ganhou o Grammy de “música do ano” e “álbum do ano”, concorrendo com os Beatles, Elvis Presley e Frank Sinatra, e provocou admiração mundial. E desprezo no Brasil.

Nas esquinas e nos velórios, nos botecos e nas farmácias, como dizia Nelson Rodrigues, os lorpas e pascácios rosnavam suas frustrações: “Se vendeu para o capitalismo e o imperialismo”, “lacaio de Tio Sam”, “fica aí nos Estados Unidos mesmo que tu já é americano”.

O temido crítico musical marxista José Ramos Tinhorão o via como um burguês farsante e debochava de seu apelido pronunciando Tom com sotaque americano.

Enquanto isso, “Garota de Ipanema” se tornava um sucesso mundial, um dos maiores de todos os tempos, e até hoje é uma das músicas mais tocadas do planeta, que incluiu o “paraíso tropical” de Ipanema e a graça de uma brasileirinha no imaginário universal.

Tom sofria com isso. Muito. Se sentia injustiçado. Desrespeitado. Não entendia. E dizia: “o Brasil não é para principiantes”.

Um dia, Tom tomou banho e foi almoçar na varanda do restaurante Antonio’s, no Leblon. Assim que o prato de camarões chegou, um barbudinho que passava parou, olhou e o acusou como quem flagra um crime: “Ra-rá! Aí, hein, seu Tom Jobim. De banho tomado… comendo camarão”…

Quando autorizou por seis meses o uso de seu sucesso “Águas de março” na campanha mundial da Coca-Cola foi o fim do mundo. Era a prova da traição. E logo para a Coca-Cola, símbolo máximo do imperialismo. Tom sofreu o diabo nesses seis meses. No Brasil, que cultua o fracasso e detesta o sucesso. Nos Estados Unidos era cultuado como um compositor vitorioso que merece ser rico com o fruto do seu trabalho.

Foi quando Tom criou uma frase imortal, que tanto serviria para defender Carmen Miranda como Anitta.

“No Brasil, sucesso é ofensa pessoal.”

Fonte: O Globo – Edição Digital

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