O ladrão cordial

Foto: Arquivo Google – Dreamstime

Uma bela noite de 1988 estava escrevendo no meu apartamento em Ipanema quando ouvi barulhos e vozes na cozinha e pouco depois recebia a visita de um bandido com uma arma apontada para mim, seguido por dois “primos” armados e a cozinheira Mari, apavorada, que tinha aberto a porta para o porteiro e eles entraram atrás.

Foi simples. Tocaram a campainha, mostraram carteiras falsas da polícia, e o porteiro abriu as grades. Assaltaram os oito apartamentos.

Com um revólver na cara, senti pela primeira vez o bafo da morte. “Cadê os dólar?”

Na gaveta da mesinha de cabeceira tinha 110 dólares, que passei ao bandido. E também os 12 cruzeiros do bolso da calça. Não tinha cofre. E nenhuma joia. E comecei a ficar preocupado; como era pouco dinheiro, os bandidos podiam se irritar e me dar um tiro. Mas era tudo que tinha.

Fomos para a sala. Nada de valor, além de uma televisão, um toca-discos, centenas de LPs e livros, e um novíssimo walkman, recém-lançado nos Estados Unidos. “Cadê o laser?”

Assim eram chamados os primeiros CDs. Ao lado do walkman, uns 50 CDs que eu havia comprado em Nova York e no Brasil, e comecei a fazer uma seleção. E ia passando para ele.

“Isso aqui é música clássica, Maria Callas, Chet Baker, jazz ”; descartava e oferecia Elis Regina, Tim Maia, samba, rock, que ele ia separando.

O bandido gostou, mas perguntou no final.

“Não tem Phil Collins, não?” “Ah, infelizmente não temos, também gosto muito”.

Fim do assalto. Fugiram no meu carro carregado. Mas prometeram devolver.

Uma hora depois, recebi um telefonema da Polícia Rodoviária perguntando se o Escort cinza era meu. Estava abandonado na Avenida Brasil na altura de Belford Roxo. Intacto, com rádio, calotas, tanque cheio, documentos no porta-luvas e chave na ignição.

“Quando esse cara for preso, vou mandar um CD do Phil Collins para ele na cadeia”, pensei.

Dois meses depois, vi a foto do meu assaltante cordial no jornal. Chamava-se Daniel, tinha roubado várias residências na Zonal Sul, e foi morto pela polícia.

Fonte: O Globo – Edição Digital

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1 Comentário

  • Ademar Amâncio , 24 de dezembro de 2019 @ 08:21

    Caraca,que história,parece ficção!

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