O feio é o novo bonito

Imagem: Arquivo Google – Rap Mais

Não é uma favela carioca ensolarada com suas lajes sobre o mar, é perifa paulista braba, onde tudo é pobre e sombrio, as casas de tijolos aparentes amontoadas sobre ruas de terra e vielas escuras, as vendinhas, as roupas, os cabelos, o dialeto, tudo é feio à primeira vista. Mas esse feio é o novo bonito através das lentes de KondZilla e Johnny Araújo na série “Sintonia” ( Netflix ), com tudo se harmonizando numa nova estética pop, nos ambientes, nos tipos humanos, nos incríveis hair designs, nas cores fortes e na linguagem ágil e sintética, contando a história de três amigos de 18 anos, dois garotos e uma menina, que crescem juntos e tomam rumos diferentes — o funk, o tráfico e a igreja evangélica —mas mantêm a amizade.
Já se viram muitos filmes de favela para saber que não há novas histórias, mas novas maneiras de contá-las. Pela familiaridade do diretor com uma cultura onde cresceu, o realismo marca a produção, como numa tensa reunião de sete bandidos num galpão, todos com celulares em viva voz com o chefão na cadeia, falando a linguagem do crime, os julgamentos sumários, as traições, as caras medonhas dos facínoras… a diferença é que os bandidos são interpretados por ex-presidiários formados em cursos de teatro na penitenciária de Guarulhos e dão às cenas um realismo impressionante a serviço da ficção. Tarantino adoraria.
A violência policial e o racismo permeiam a série, os protagonistas não parecem aqueles bonitinhos de televisão, têm traços fortes fora dos padrões, mas são talentosos e expressivos, com interpretações emocionadas que fogem do “naturalismo” televisivo e dão verdade e empatia aos personagens. Existe amor em São Paulo.
E humor, na advertência aos invejosos: “Olho grande não entra na China”.
A série está na categoria “para adolescentes”, mas vale para adultos interessados em conhecer um Brasil jovem, real, violento e festivo, onde, apesar de tudo, a vida vibra, e cada um busca seus sonhos e enfrenta seu destino no batidão do funk e dos tiroteios.
Fonte: O Globo – Edição Digital

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