Memórias de um antirracista

Tim Maia detestava ser chamado de mulato, mas eles são fundamentais nos livros de Jorge Amado. Quem ousaria fazer um expurgo na obra do escritor?

Meu maior amigo da vida inteira, desde criança até sua partida, era preto. Sempre nos tratamos como iguais, como irmãos.

Por heranças malditas familiares, minha mãe tinha atitudes racistas, de uma forma cômica, mas racista. Meu pai abominava qualquer preconceito e aceitava cada um como era. E gostava muito do meu amigo, filho da cozinheira do vizinho desembargador, gostava de sua esperteza, sua simpatia, nossa amizade. E, surpresa, minha mãe aprendeu a amá-lo e respeitá-lo superando seus preconceitos. Sempre tive confiança total nele e vice-versa. E aprendi a odiar o racismo e a combatê-lo com alguém que o enfrentou a vida inteira. Foi meu parceiro em várias casas noturnas de sucesso e em fracassos amorosos.

Uma vez, mudei de apartamento e ele foi me visitar. E, apesar de sua classe e elegância, o porteiro, nordestino, indicou o elevador de serviço. Entrou no social e chegou humilhado e espumando de raiva. Logo liguei para o porteiro:

“Você está louco? Quer ser preso? Se ele ligar para a delegacia você está ferrado. Não sabe que racismo é crime?”

Enquanto ele gaguejava desculpas emendei ameaçador.

“Este homem é o professor Pepe. Pode mandar te prender.”

Depois, dava gosto ouvi-lo anunciar no interfone, todo respeitoso, “o professor Pepe está subindo.” Se tivesse um chapéu tiraria à passagem do mestre afrocarioca.

E na porta eu o abraçava com uma gargalhada cúmplice: “Salve, professor”.

Pepe era professor sim, mas de malandragem, humor, gatas e discotecagem. E o porteiro nordestino, igualmente vítima de preconceito, sem notar, contribuía para aumentá-lo contra si mesmo.

Um dia o encontrei passeando no calçadão com seu Buba, um lindo pastor alemão. Estava cuspindo fogo. Tinha sido abordado por um idiota que era puxado pela coleira por um vira-lata, que elogiou Buba e perguntou: “É o cuidador, né?”. A inveja e o ressentimento amam a burrice.

Alguns amigos negros americanos que fiz no Harlem muitas vezes me chamavam de “nigga” em papos, como se chamam entre eles, não como a palavra tão maldita que os jornais só escrevem “the N word”, mas como uma forma de intimidade, brodagem e amizade. Mas nunca retornaria o tratamento: seria altamente ofensivo. E seria chamado de white trash, lixo branco. Podia apanhar.

Às vezes, durante uma discussão musical com Tim Maia, quando não tinha mais argumentos, ele partia para a ofensa: “Ô, Nelsomotta, tu não sabe porque tu é branco! Braaaaanco! “, e caía na gargalhada.

Charge: Google Imagens – Kim – Brasília/DF

Tim detestava ser chamado de mulato (“cor de mula”), mas eles são personagens fundamentais na obra de Jorge Amado, com homens heroicos como o professor Pedro Arcanjo e mulheres como Gabriela, e muitos outros, por isso é difícil imaginá-lo racista por chamá-los de mulatos, que hoje é pejorativo e ofensivo. Mas quem ousaria fazer um expurgo na obra de Jorge Amado, um “turco” mestiço filho de imigrantes ?

E vamos parando por aqui antes que comecem a me acusar de apropriação cultural, de ocupação de um lugar de fala que não me pertence e, finalmente, de racista.

Fonte: O Globo

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