Com os podcasts, volta o poder da imaginação

É um momento em que se cruzam o entusiasmo pelo novo meio e as memórias de criança pré-TV e criada ao som do rádio.

Imagem: Google Imagens – AERP (meramente ilustrativa)

O podcast é o novo rádio. Com ele voltam as radionovelas, as séries policiais e de mistério, os dramas e aventuras, ficções e documentários, infantis, juvenis, adultos, que podem ser ouvidos a qualquer hora em qualquer lugar, em várias plataformas de áudio, parado ou em movimento com os fones.

É um momento em que se cruzam o entusiasmo pelo novo meio e as memórias de criança pré-televisão e criada ao som do rádio nos anos 50 do século passado.

Nas cozinhas, o rádio ficava ligado o dia inteiro, menos quando alguma patroa tirana proibia. Nele aprendíamos as músicas de carnaval, ríamos com os programas humorísticos como “Balança mas não cai”, de Max Nunes, com os grandes comediantes do momento.

Em volta do rádio da sala a família ouvia as notícias do Repórter Esso e os programas de auditório com apresentações ao vivo das maiores estrelas da música com a grande orquestra da Rádio Nacional e os melhores arranjadores.

E ninguém perdia novelas como “O direito de nascer”, que emocionava o Brasil e era comentada, como dizia Nelson Rodrigues, nas esquinas, nos botecos, nos velórios e nas farmácias, sem nenhuma concorrência, com audiência nacional tão maciça como nem a TV Globo registrou nos tempos áureos das telenovelas.

Com 10 anos eu não me interessava por novelas, mas não perdia um capítulo de “Jerônimo, o herói do sertão”, de Moisés Weltman, que os garotos se juntavam para ouvir no quarto de um deles, no fim da tarde. Com Jerônimo viajávamos pela selva e o sertão guiados pela voz viril do herói, ríamos com a fala atrapalhada do seu parceiro Moleque Saci, sofríamos com a paixão de Jerônimo pela bela Aninha, filha de um coronel que era seu maior inimigo.

Filho de Maria Homem nasceu / Serro Bravo foi seu berço natal / entre tiros e tocaias cresceu / hoje luta pelo bem contra o mal / galopando vai em todo lugar / pelo pobre a lutar sem temer / o Moleque Saci pra ajudar / ele faz qualquer valente tremer.”

Quando a música tocava, galopávamos junto com Jerônimo pelos melhores cenários que nossa imaginação podia criar com o que já tínhamos visto em filmes, fotos, quadrinhos e sonhos, inspirados pelas trilhas sonoras de ruídos, cavalgadas, brigas, socos e pontapés, tiroteios que zumbiam em nossos ouvidos.

No escuro era melhor ainda, não havia nenhuma distração, só você e sua imaginação, cada um com a sua, cada um vendo Jerônimo de um jeito, imaginando uma Aninha por quem todos se apaixonavam.

Quando passou para os quadrinhos, Jerônimo e sua turma ganharam cara e corpo em desenhos e perderam em fantasia. Também fracassou na televisão em duas tentativas. Era um herói de áudio.

O sucesso do podcast “Praia dos Ossos”, documentário sobre o assassinato de Angela Diniz, abriu caminho para outras séries jornalísticas como “A vida secreta de Jair”, que enfureceu Bolsonaro por ser tudo verdade, assim como “À mão armada”, de Sonia Bridi.

Na era do visual, que deixa pouco para imaginar, nasce um novo rádio, que tem a sua parceira ideal na imaginação do ouvinte.

Fonte: O Globo

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