Carta para Rita Lee

Foto: Google Imagens – Nação da Música

Rita, querida,

Hoje me lembrei da minha primeira vez. Você chegando com os Mutantes nos ensaios do Festival da Música Brasileira de 1967, em que iam cantar “Domingo no parque” com o Gil. Uma ruivinha linda, de olhos azuis e longos cabelos lisos, com um look moderno e um nome de americana. A MPB de raiz tinha o rock como inimigo ideológico, era a rendição à cultura americana, ao colonizador, à alienação, chegou a promover passeatas contra a guitarra elétrica. Eu era da MPB, mas estava encantado com o pré-tropicalismo de Gil e Caetano. Quando você apareceu tocando seu pandeirinho e cantando com Gil e os Mutantes até a MPB mais careta ficou fascinada com sua graça. Pena que seja tão alienada, rosnavam os nacionalistas de esquerda que não percebiam o caráter transgressivo, libertário e transnacional do rock.

Outro grande barato foi ver de perto sua apresentação triunfal com os Mutantes no Festival da Canção, vestida de noiva, com Serginho de toureiro e Arnaldo de pajem medieval. O Maracanãzinho inteiro queria casar com você!

Toda vez que você vinha lamentar e reclamar da sua expulsão dos Mutantes eu dizia que era o melhor que podia acontecer na sua vida. Porque você pôde iniciar uma carreira solo triunfal, possibilitou seu casamento musical perfeito com o Roberto, e virar rainha do pop e uma das maiores letristas da nossa música, a primeira compositora brasileira a fazer grande sucesso popular, com estilo próprio, feminista debochada, crítica de costumes, libertária e transgressora, sem perder a ternura. E virou o crush de várias gerações.

Lembro que estava em São Paulo e fui te visitar, você estava muito triste em uma de suas separações transitórias do Roberto, eu numa rebordosa amorosa, e até fizemos uma música juntos, triste naturalmente. Falei pro Tim Maia que você estava meio jururu e para ele dar uma força. E você ouviu a voz de trovão: “Ô Ritalee, eu já esperei a administração Arnaldo Baptista, já esperei a administração Roberto de Carvalho … I LOVE YOU!”

Também tive a graça de ver de perto a sua participação no programa do João Gilberto, da série Grandes Nomes, em 1981. Todo mundo imaginando quem seria a convidada secreta: Gal, Nara, Bethânia, mas a equipe do programa guardou segredo e a MPB quase morreu de susto quando apareceu a rainha do rock. Cantando bossa nova. O mestre sabia tudo. Adorava você como cantora, não é pouco partindo de um gênio perfeccionista como ele.

Na sua autobiografia você mostrou sua coragem, com uma sinceridade direta e sem firulas, narrando acontecimentos gloriosos — e tenebrosos de sua vida. É incrível como você esteve no fundo do poço, no fundo de vários poços, e saiu de todos, machucada, mas íntegra e renovada. Até chegar a uma vovó careta e sábia, criativa e produtiva, feliz com Roberto e seus filhos e netos, suas plantas e seus bichos.

Fiquei um pouco preocupado com as notícias que você vai começar a sair de mais um poço. Então lembrei algumas de nossas histórias para te divertir.

Beijos do fã,

Little Nelson

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