Bons de cama não têm burnout

Dormir bem é fundamental para viver bem, é óbvio e redundante, mas como dormir bem com um barulho desses em que vivemos?

“Mãe, acho que fui picado pela mosca tsé-tsé e estou com a doença do sono”, era a treta que tentei algumas vezes, sem sucesso, para não ter que acordar e ir à escola.

Dormir é muito bom, faz muito bem, a fisiologia do corpo exige, oxigena o cérebro, não há nada melhor do que começar um dia de trabalho depois de uma boa noite de sono, as ideias clareiam, a inteligência está desperta, a energia fluindo.

Passamos um terço de nossas vidas dormindo, mas isso não quer dizer que estejamos mortos nesse tempo. A vida continua pulsando nos sonhos e provocando emoções reais, às vezes tão fortes que podem provocar um infarto em um pesadelo mais desesperador. Ou sensações tão boas e tão além da realidade conhecida que dão vontade de não acordar mais. Sonhos eróticos. Viagens impossíveis com vivos e mortos. Pessoas improváveis em lugares desconhecidos e deslumbrantes. Há muita vida dentro de nós enquanto dormimos.

Em 1635, Calderón de la Barca, um dos pais fundadores da dramaturgia espanhola, encenou pela primeira vez “A vida é sonho”, que se tornou um clássico do teatro mundial. É um conflito entre pai e filho, livre arbítrio e destino, e, naturalmente, vida e sonho. Um rei tranca o filho em uma torre desde que nasceu para evitar a maldição de que se ele um dia fosse rei o reino seria destruído. Com a ajuda de um amigo, o príncipe consegue escapar para o mundo exterior, mas o rei o captura e o tranca de novo na torre — e o convence que foi tudo um sonho.

Não chegaria aos extremos da licença poética de Calderón, a vida tambem é sonho, mas não só. Muitas vezes, os melhores sonhos e os piores pesadelos são superados pela realidade mágica, imprevisível, implacável e brutal.

Belchior cantava que “viver é melhor que sonhar” no seu clássico “Como nossos pais”, mas há controvérsias. Nem sempre, poeta, nem sempre. Eu diria que não é melhor nem pior, é diferente e complementar, a vida continua enquanto você dorme. E o que você vive se expressa nos sonhos, e vice-versa, num fluxo continuo entre a consciência e o inconsciente.

Dormir bem é fundamental para viver bem, é óbvio e redundante, mas como dormir bem com um barulho desses em que vivemos?

As farmácias comemoram vendas espetaculares de soníferos e antidepressivos na pandemia. Remédios para escapar da realidade insuportável para o mundo dos sonhos. A felicidade, às vezes, é química.

Como sou bom de cama, deito e durmo logo oito horas seguidas, tenho muita pena, sinto muita compaixão por quem sofre de insônia, um tormento infernal que já penei em outros tempos.

Agora, imagine um presidente da República de 65 anos que diz dormir pessimamente, no máximo quatro horas por noite, acordando muitas vezes e mantendo um revólver na mesa de cabeceira.

É nesse estado, nesse cansaço, nesse péssimo humor, nessa confusão mental, por remédios ou exaustão, ou os dois, que Bolsonaro fala suas maiores barbaridades no curralzinho do Alvorada. Já no bagaço, no fim da tarde, toma decisões desastrosas no Planalto.

Autor: EVARISTO SA | Crédito: AFP (meramente ilustrativa)

Bolsonaro deu burnout.

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