As mulheres-maravilhas

O machismo sofreu um rude golpe com a criação da personagem, que virou uma heroína para milhões de garotas

É tudo verdade. O brilhante psicólogo, inventor e professor de Harvard William Marston, sua mulher, Elizabeth, também psicóloga e mestra de alto nível, que juntos desenvolveram o aparelho detector de mentiras, e a jovem aluna Olive, que fez carreira acadêmica, formaram um trisal que escandalizou a sociedade americana nos anos 1930. E mais importante: inspiraram Marston em sua maior invenção, a Mulher-Maravilha, que ganhou os quadrinhos em 1941, se tornou imediatamente um espetacular sucesso e vive até hoje em diferentes encarnações, como a primeira mulher entre os super-heróis e um símbolo do poder feminino antes da palavra feminismo existir.

Foto: Google Imagens – Santos Film Fest (meramente ilustrativa)

Notando o interesse do marido por uma aluna em uma palestra, sua mulher toma a iniciativa de convidá-la para ser assistente do casal no desenvolvimento de uma máquina capaz de detectar mentiras através de medições de pressão, batimentos cardíacos, ondas cerebrais, que se alteram quando o declarante mente. Atraída sexualmente pela jovem, Elizabeth também a leva para os braços do marido. Encantada pela imensa admiração que sente pelos mestres, Olive integra sua beleza e juventude ao casal intelectual, e a imensa admiração se transforma em amor, gratidão e tesão.

O que pode parecer a velha fantasia machista de ter duas mulheres, na verdade é a construção de uma audaciosa relação harmônica e produtiva, movida a respeito, amor e admiração, de corpo e alma, comandada pelas duas mulheres, que se atraem mais sexualmente entre si do que com Marston, e o levaram a sintetizá-las na Mulher-Maravilha, que tem a inteligência e o brilho de Elizabeth e a força, juventude e beleza de Olive. Tudo isso em 1941 nos ultraconservadores Estados Unidos.

O sucesso foi imediato e escandaloso, a super-heroína inspirada no mito das amazonas guerreiras tinha um look tão sexy e desafiador, com seu espartilho, seu shortinho e seus braceletes antibalas, e maltratava tanto seus vilões, com torturas, humilhações e sadismo, além de brutais espancamentos, que logo se tornou alvo da perseguição das ligas conservadoras cristãs, levando muitos jovens leitores a queimar as revistas na rua. Mas a Mulher-Maravilha resistiu, sobreviveu e cresceu. E o trisal continuou junto até a morte de Marston.

Sim, as experiências com o detector de mentiras eram feitas pelo próprio trisal, anulando também as inverdades que comprometem qualquer relação.

Fruto de uma intensa vivência intelectual, afetiva e sexual, sem espaço para ciúmes, possessividade, jogos de poder e outras doenças conjugais, o machismo sofreu rude golpe com a criação da Mulher-Maravilha, que se tornou uma heroína para milhões de garotas no mundo inteiro, atravessando gerações como símbolo de força, independência e poder femininos.

Tudo isso virou o ótimo filme “Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas” (Paramount), dirigido por Angela Robinson, produzido e roteirizado por mulheres, para mulheres, mas principalmente para homens. E o recado é claro: uma mulher pode ser tudo que quiser.

Fonte: O Globo

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