A missão da crônica

Todos se tornaram também cronistas políticos, ficou tudo muito chato e monotemático.

Tive a felicidade de ler e conviver com grandes cronistas como Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, José Carlos Oliveira, Antonio Maria, e esperava ansioso pela publicação de suas crônicas nos jornais. Tudo deles era leve e intimista, inteligente e bem-humorado, comentando o cotidiano, refletindo sobre a vida. A ambição da crônica era entreter os leitores, diverti-los, emocioná-los às vezes. E não aborrecê-los com discussões políticas, que para isso havia os editorialistas e comentaristas.

O que eu admirava neles era a capacidade de escolher temas banais e tratá-los com uma linguagem coloquial, econômica e divertida, e às vezes até poética, e também como uma forma de contar histórias pessoais entre a realidade e a ficção, de memórias divertidas ou dramáticas. Depois de 64 a crônica teve que ampliar seus temas para incluir também a política, e trocar a leveza pela mão pesada. Do AI-5 em diante se tornou quase uma obrigação para quem tinha algum espaço na imprensa comentar, ainda que por metáforas, o momento social e político.

Com a redemocratização de 85, depois de 20 anos de jejum de liberdade, de censura e repressão, a fome de participação fez todos os cronistas mergulharem na política da Nova República, que na verdade era a velha só que com outros nomes. Até os cronistas de “amenidades”, como eram chamados pejorativamente os da velha escola, queriam dar seu pitaco quando se discutia o início de uma nova era cheia de esperanças de progresso, democracia e liberdade.

Sempre gostei de política, leitor fiel dos mestres Carlos Castello Branco, Villas-Bôas Corrêa, Paulo Francis, Elio Gaspari, e quando comecei como cronista de música, escrevia só sobre o que gostava e ignorava o que desprezava. Claro que se escreve melhor sobre o que se gosta, que anima, que emociona e entusiasma. É melhor escrever com o coração do que com o fígado. O leitor agradece.

Hoje tudo isso parece tão antigo, ingênuo e piegas diante do que a crônica se transformou na era Bolsonaro: todos se tornaram também cronistas políticos, ficou tudo muito chato e monotemático.

Eu mesmo mantive um pé no mundo cultural outro na arena política, tentando ao menos manter o estilo e a linguagem leves, se possível elegantes, mesmo diante do lodaçal e da revolta com o Mensalão e a Lava-Jato e suas consequências na vida brasileira, das quais a mais nefasta foi Bolsonaro e seus filhos.

Abandonei um pouco a nobre e dura missão de divertir e entreter o leitor já esmagado por uma realidade massacrante multiplicada pela mídia e as redes sociais. Mas a ascensão de Bolsonaro e o ódio e antagonismo que provocou atingiram até cronistas de culinária, de esportes e de viagens.

Imagem: Google Imagens – vamosfalarsobremusica.com.br

Minha única vantagem é quando discordam de minha opinião eles gritam furiosos nas redes: “Vai falar de música!” Já é alguma coisa.

Fonte: O Globo

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