A linda Marvão parece ter parado no tempo

Fui tantas vezes a Portugal e nunca tinha tido a oportunidade de conhecê-la. Marvão estava no topo da minha lista: sabia que era uma das mais lindas aldeias históricas do país, quase na fronteira com a Espanha.

Já havia lido e visto fotos de Marvão, mas nada superou o encontro ao vivo. E assim, num recente janeiro frio e ensolarado, realizei meu sonho.

A primeira característica que chama a atenção é sua localização geográfica. Situada no Parque Natural da Serra de Mamede, no distrito de Portalegre, encontra-se no topo de colina de pedra, a mais de 800m de altitude.

Vista aérea de Marvão. Não é sensacional? (Fonte: visitportugal.com)

Pois é, quando a gente pensa em Alentejo, só se lembra de planícies a perder de vista e um terreno mais árido, próprio para vinhedos, oliveiras e os famosos sobreiros, de onde se extrai a cortiça. Na região de Marvão, na parte nordeste do Alentejo, há montanhas, florestas, e um clima mais ameno onde, em pleno inverno, as temperaturas chegam fácil aos 0C.

A primeira vista de Marvão a partir da estrada já é um impacto. Há outras vilas no topo de colinas, como Monsaraz, também no Alentejo, mas a 200m de altitude. Faz toda a diferença.

Um pouco de história:

Vestígios arqueológicos remontam aos períodos Paleolítico e Neolítico.

Na região há também evidências de fundações romanas da cidade de Anmaia, do século 1 d.C., que confirmam a ocupação romana.

Depois vieram mouros, batalhas para expulsão deles, batalhas entre portugueses e espanhóis. Aquela vila murada, no topo da colina, tinha uma posição estratégica militar por sua capacidade defensiva.

O nome Marvão vem do personagem mouro Ibn Marwan, que nos finais do século IX, lá se protegeu por discordar do califa de Córdoba.

O tempo passou e com ele veio um certo declínio por Marvão encontrar-se longe do eixo Porto-Lisboa, a apenas 6km de distância da fronteira com Espanha. Essa foi uma boa maneira de ter seu patrimônio preservado. Hoje passa por recuperação de seus vários imóveis, e ainda é pouco visitada por turistas. O que a torna uma vila genuinamente original, que mantém sua atmosfera medieval, e que parece parada no tempo.

Um dado muito interessante: Marvão tem 83 habitantes dentro dos muros. Isso mesmo, 83, o que foi confirmado pela gerente do nosso hotel, moradora local. Eu tinha lido que eram 80 habitantes, mas ela, com muito orgulho, me contou que naquele ano 3 crianças haviam nascido! Adorei a história!

O que fazer:

Vou contar minha experiência de 24 horas em Marvão. Chegamos no final da tarde de um domingo e nosso hotel era intramuros. O acesso à vila é pelo Portão de Ródão e antes de atravessá-lo há um estacionamento público. Como gosto de desafios, entramos de carro e, confesso, foi um tanto de sufoco para dirigir pelas ruelas muito estreitas.

Porta de Ródão, a entrada da vila murada. Ainda não havia chegado o Dia de Reis,
por isso o “Boas Festas” acima do arco. (Fonte: Mônica Sayão)

Não quis perder tempo porque ia escurecer logo. Saí andando a esmo, sempre tentando seguir por ruelas que me levariam à parte mais alta da cidade, na esplanada do Castelo de Marvão.

Esta é a rua do nosso hotel, a Pousada Santa Maria de Marvão, pertencente ao grupo Pestana.
A entrada é sob o arco ao fundo. Estacionamento? Por trás do arco há um micro espaço para três carros, onde estacionamos.
(Fonte: Mônica Sayão)

No caminho até o castelo comecei a me encantar com preciosidades, como a Capela do Espírito Santo e a Fonte do Concelho, uma ao lado da outra. Com o céu em tons de rosa e nenhuma alma viva além de mim, foi uma sensação fantástica.

Capela do Espírito Santo, do séc. XVI. (Fonte: Mônica Sayão)
Fonte do Concelho. (Fonte: Mônica Sayão)
Algumas ruazinhas são encantadoramente antigas.
(Fonte: Mônica Sayão)

Continuei a subir e digo que alguns daqueles estreitos caminhos não são definitivamente para carros, mas que são um tremendo charme. Cheguei a tempo do final do pôr do sol e me surpreendi de só ter encontrado uma pessoa lá no miradouro.

Cheguei à esplanada em frente ao castelo, e ainda pude curtir o pôr do sol.
(Fonte: Mônica Sayão)

Resolvi continuar a explorar Marvão e, com a noite, a atmosfera ficou ainda mais mágica. Desci por uma rua que me pareceu bem simpática e vi uma placa de um café. Enfim encontraria pelo menos parte dos 83 habitantes lá!

Desci por uma rua simpática. O Hotel Dom Dinis, que também é muito bom, está à direita da foto, e havia uma placa de um café em frente a ele.
(Fonte: Mônica Sayão)
Entrei no café e gostei ainda mais do que vi: umas 5 a 6 pessoas tomando café e assistindo ao futebol na TV.
Pode ser que alguns fossem turistas, mas outros realmente eram locais. Peguei meu café e me juntei ao grupo. E lá fora -1C!
(Fonte: Mônica Sayão)

Do café até o hotel foram mais uns 20min perambulando por aquele lugar mágico, sem qualquer sinal de vida. Nem luzes no interior das casas. Surpreendente!

Andar à noite por Marvão foi experiência única. (Fonte: Mônica Sayão)

Tenho certeza que fora do inverno a vila é mais animada. Havia hotéis e restaurantes fechados. Meu jantar foi no restaurante do nosso hotel, com serviço muito atencioso e comida deliciosa.

No dia seguinte, depois de um café da manhã cheio de guloseimas, saí para mais reconhecimento de terreno. Fazia muito frio porque o sol ainda estava baixo.

Cada recanto mais lindo que o outro! E sempre com suas casas brancas, características do Alentejo.
(Fonte: Mônica Sayão)
A Praça do Pelourinho. (marvao.pt)
O sol deu uma esquentada no ar, mas… onde estão os 83 habitantes?
(Fonte: Mônica Sayão)
Finalmente duas pessoas no horizonte. (Fonte: Mônica Sayão)
E o melhor dos achados: uma mercearia! (Fonte: Mônica Sayão)
Que vendia diversos produtos bacanas, de vinhos e cervejas, doces e até artesanato. Acho que é o “point” de Marvão”.
(Fonte: Mônica Sayão)
Detalhes pitorescos em cada rua. (Fonte: Mônica Sayão)
A paixão foi aumentando… (Fonte: Mônica Sayão)
A parte mais bonita de Marvão onde encontra-se a Igreja de Santa Maria
(onde hoje é o Museu Municipal), um lindo jardim e o castelo, de onde tirei a foto.
(Fonte: Mônica Sayão)
A Igreja de Santa Maria, do século XIII, foi transformada no Museu Municipal, que conta a história de Marvão. Vale a visita. Parte do castelo ao fundo.
(Fonte: Mônica Sayão)
A imagem do castelo quase se funde com a rocha sobre a qual foi construído.
(Fonte: Mônica Sayão)

Onde ficar:

Recomendo a escolha de um hotel dentro da vila murada. Isso faz toda a diferença na percepção da atmosfera do lugar.

O nosso hotel, Pousada de Marvão, que pertence à cadeia Pestana, é muito bem localizado e possui uma vista quase imbatível. Escolhi o melhor quarto e não me arrependi. O preço era um pouco mais alto mas fez toda a diferença. Além do quarto, havia uma saleta e uma varanda só nossa com vista divina, olhando para a Espanha.

O restaurante tinha a mesma vista para a Espanha e era todo envidraçado. Um super bônus!

Há outros bons hotéis intramuros em Marvão, como o Dom Diniz e o Casa da Árvore.

Vista do restaurante da Pousada de Marvão, com a Espanha a 6 km de distância, se pudéssemos ir em linha reta.
Pela estrada são cerca de 14 km até a fronteira.
(Fonte: Mônica Sayão)
Mais da vista, agora sem o vidro, com a Espanha ao fundo.
(Fonte: Mônica Sayão)
Um café da manhã delicioso! (Fonte: Mônica Sayão)
Ambientes de estar da Pousada de Marvão. (Fonte: Mônica Sayão)
Ambiente da lareira: muito aconchegante. (Fonte: Mônica Sayão)
Nosso quarto: charmoso e confortável. (Fonte: Mônica Sayão)
Vista da varanda do nosso quarto, que mostra o restaurante envidraçado.
(Fonte: Mônica Sayão)
Uma última imagem da vista do nosso quarto. (Fonte: Mônica Sayão)

Outros passeios nas redondezas:

Recomendo muito a visita ao vilarejo de Castelo de Vide, 11 km antes de se chegar à Marvão. É também uma pequena cidade histórica, com muito charme e personalidade.

Vale muito conhecer Castelo de Vide, bem próxima de Marvão. (Fonte: Mônica Sayão)

Como chegar:

O trajeto entre Lisboa e Marvão tem cerca de 240 km, que acaba sendo feito em 3h (sempre há paradas para fotos e café). Por isso recomendo o pernoite na região.

Acho o automóvel o melhor e mais conveniente meio de transporte porque o ônibus leva 4h ou mais, com oito paradas pelo caminho. A mesma situação se aplica ao trem.

A estrada é linda, principalmente quando estamos próximos de Castelo de Vide e Marvão. Há um trecho especial, com alamedas de árvores e fazendas com gado. Tudo muito bucólico e bem rural. A estrada é a N246-1.

A estrada é linda. Esse visual foi no auge do inverno, quando as folhas das árvores caem. Imaginem em outras épocas do ano.
(Fonte: Mônica Sayão)
Muitas vaquinhas pelo caminho. Amei as vaquinhas mas não estou certa da recíproca.
(Fonte: Mônica Sayão)

Sei que vou voltar. Com certeza, vou voltar!

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4 Comentários

  • Avatar
    Edwiges Chiappetta Azevedo , 30 de janeiro de 2021 @ 14:54

    Que lindo, Monica ! Não conhecia Marvão e achei a vila encantadora, evidentemente com acréscimo que você faz tão bem de história e fotos belíssimas!!😘😘

    • Mônica Sayão
      Mônica Sayão , 1 de fevereiro de 2021 @ 11:26

      Edwiges querida,

      Marvão é pouco conhecida mesmo. É mágica!

      Obrigada pelo carinho de sempre!

      Bjs
      Mônica

  • Avatar
    LEILA MARIA PEREIRA VIEIRA , 31 de janeiro de 2021 @ 18:20

    Adorei passear por Marvão, parece ser um pequeno tesouro. Uma delícia de lugar. As fotos maravilhosas como sempre. Quando vai levar o seu grupinho?

    • Mônica Sayão
      Mônica Sayão , 1 de fevereiro de 2021 @ 11:28

      Querida Leila,

      O que mais quero agora é oder levar meu grupinho até lá e a outras preciosidades de Portugal!!!

      Obrigada pelo carinho,
      Bjs
      Mônica

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