A derrota de Alckmin

alckminGeraldo Alckmin, governador São Paulo (Foto: Marcelo Camargo / ABr)

Dividido como sempre, e às turras, o PSDB enfrenta hoje mais um round de seu fratricídio sistêmico, que há anos o consome.
Como manda o figurino, os líderes pregam união após o resultado das prévias que acontecem neste domingo para a escolha do candidato do partido à Prefeitura de São Paulo. Mas a disputa já provocou feridas difíceis de serem cicatrizadas. E se fora das torcidas ninguém arrisca antecipar o vitorioso entre os três postulantes – Andrea Matarazzo, João Dória e Ricardo Tripoli -, é certo que há um derrotado: o governador Geraldo Alckmin.
Longe de seu estilo habitual, de preferir a discrição à exposição pública de seus pensares, Alckmin arriscou tudo e mais um pouco. Escolheu um candidato, construindo uma armadilha para si: não pode perder. E, se vencer, perderá.
De olho em 2018 – e só de olho lá -, o tetra governador paulista surpreendeu ao apoiar abertamente o candidato João Dória. E o fez não por méritos do empresário ou por ver nele maiores chances de êxito no pleito de outubro, mas para brecar o vereador Andrea Matarazzo, candidato identificado com o senador José Serra, eterno presidenciável do tucanato. A batalha, que se dará em dois turnos, tem ainda o deputado federal Ricardo Tripoli, endossado pelo também deputado Bruno Covas, neto do governador Mario Covas, e pelo suplente de Serra, José Aníbal.
Mas a briga se polarizou entre Matarazzo e Dória.
Pré-candidato em 2012, Matarazzo desistiu de disputar as prévias em favor de Serra, elegendo-se vereador. Agora, angariou o apoio de toda a bancada de vereadores tucanos, de parte expressiva de deputados estaduais e federais com voto na capital, dos senadores da sigla. E do líder maior do partido, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que, para o dissabor de Alckmin, foi o maior entusiasta da candidatura presidencial de Aécio Neves.
Pelas mãos de FHC, Aécio entrou em São Paulo, onde alcançou a melhor performance de um tucano no Estado, 64,3% dos votos. Muito acima dos 52,2% obtidos por Alckmin quando foi candidato à Presidência, em 2006.
Empresário e promoter de convescotes de luxo na Ilha de Comandatuba, nos quais reuniu durante 14 edições a nata do pensamento nacional, Dória era desconhecido nas hostes tucanas. Embora filiado desde 2000, jamais militou no partido. Algo, aliás, que estragaria seus negócios, especialmente em tempos de petistas na Presidência da República. Seria difícil ele chegar a algum lugar sem o suporte do governador.
Há quem diga que Alckmin deu mais do que aval ao empresário. Teria inventado Dória.
O problema de usar uma eleição pensando em outra é que a política tem dinâmica incontrolável. Não raro, estratégias traçadas com tanta antecedência atingem mais a culatra do que o alvo.
Tendo jogado no lixo a condição que a governança gentilmente lhe concedia de ser alguém que paira acima da disputa, Alckmin enfiou-se antecipadamente, e de público, no ringue. E o fez na primeira metade de seu quarto mandato, contaminando os próximos anos de seu governo.
Pior: na arriscada tentativa de se fincar no futuro, rifou o presente, colocando em segundo plano os destinos da cidade de São Paulo. Uma eventual vitória é derrota anunciada.

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