Trago o coração repleto de lembranças

Vou falar das cidades que eu mais amei. Por que algumas entre tantas ficaram num lugar especial da minha memória? Certamente por terem me agradado pelos sabores, pelas paisagens, pelas cores, pelos cheiros… Mas não há explicação lógica para o amor que senti por determinados lugares.

Nunca vou me esquecer das saladas e da comida deliciosa do Marrocos e adorei Marrakesh, Agadir, Tan Tan e Tiznit. Pulando para outro continente, amei o Nepal e Kathmandu e arredores, com seus templos deslumbrantes que ruíram com o terremoto, mas estão sendo reconstruídos, na medida do possível.

Na Índia nunca vou me esquecer de Vrindavan, Dakshneswar e MacLeod Ganj, em Dharamsala, nos Himalaias. Em Dharamsala tomei chá salgado e comi arroz doce, não o nosso arroz doce, mas um arroz doce tibetano, com frutas cristalizadas, numa cerimônia com o Dalai Lama em que éramos os únicos estrangeiros. Ainda me lembro do cheiro de especiarias e incenso pelo ar. E do Taj Mahal e sua história, of course.

Quando morava em Paris, usava essência de morango indiana e o perfume L ‘Heure Bleu, da Guerlain, criado em 1912, meu perfume favorito com toques de aniseed, bergamota, rosa, cravo, angelica, violeta e neroli, com baunilha, tonka bean, íris e benjoim.
Quando morava em Paris, gostava muito de passar fins de semana em Veneza. Viajava sozinha de trem à noite e ao chegar gostava de caminhar pelas ruas e visitar as lojas de queijo e comida, ah, os queijos, redondos, enormes, ah, os pães… além de passear de gôndola pelos canais. Não conhecia ninguém , e a sensação que eu tinha era libertadora: eu e o Universo na praça de San Marco. E é claro que já fui ao Harry’s Bar. Fiquei encantada também com Bruxelas e Amsterdam.
Quando morava em Paris, num fim de semana em Sully, tomei o melhor vinho branco da minha vida, Montrachet. Foi no castelo do produtor, um duque, meu amigo, e no meu quarto tinha dormido a Rainha Mãe da Inglaterra, quinze dias antes.

Aprendi a amar Portugal quando li “A Cidade e as Serras”. (Adoro especialmente Cascais e Coimbra e sou fanática pelo queijo da Serra da Estrela).

Eu lia tudo. Para não me incomodarem, subia escondida num pé de acácia e lá em cima tinha uma forquilha muito confortável onde sentava para ler.

Ninguém nunca me achou porque quando me procuravam as pessoas nunca olhavam para cima. Passava horas lendo. Mas também fazia exercícios, apesar de não ser boa em natação: estudava ballet com o Johnny Franklin, que eu idolatrava, e fazia bem equitação e esqui aquático.

Amo Paris, Hong Kong, Nova York. Amo os estados de Oregon, Washington e Connecticut nos Estados Unidos.
Uma vez comprei uma passagem pela Delta airlines ” see the USA” e viajei para cada cidade que a companhia aérea voava. Passei mais de um mês viajando. Para economizar marcava o voo na hora do almoço ou do jantar. Naquela época era muito confortável andar de avião. Como me diverti. Também amava New Orleans, Natches, Mississippi, e as anti-bellum houses do sul. Visitei quase todas.

No Brasil amo Ouro Preto, Parati, Búzios, São Tomé das letras, Visconde de Mauá. Já fui de carro, para conhecer melhor o meu país, até o Ceará.

Fui a Ponta Porã, onde ao atravessar a rua estava em Pedro Juan Caballero, no Paraguai, sem alfândega nem passaporte. Cheguei a ver, pequena, o poder das águas em Sete Quedas, o maior volume d’ água do mundo. Sua destruição é uma dessas dores que não passa no meu coração — e fui à Foz do Iguaçu, quando as laranjeiras estavam em flor. Parecia que tinham derramado litros de perfume pelo ar, no meio dos arco-íris formados pela aspersão das águas.

Visitei também Tiradentes, Mariana, Barbacena e Ouro Preto, Porto Seguro – amo Arraial d’ Ajuda – e Maceió, que tem ( ou teve?) a cor do mar mais bonita que já vi na vida, mais bonita que no Caribe – tantos lugares. Bons tempos em que se podia viajar sem medo.
Hoje não teria mais essa coragem.
Se tivesse, visitaria a Suécia e a Nova Zelândia. Sem falar nas praias do sul do Pacífico.
Recordar e sonhar é muito bom.

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