The Waste Land

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Sempre senti uma atração irresistível por este poema, que cheguei a saber quase de cor. Acho que T.S. Eliot foi um dos motivos de eu ter ficado tão amiga do Tom Jobim. Uma vez ele recitou, sentado numa mesa grande: ” April is the cruellest month…”. Enquanto as pessoas olharam surpresas, sem entender o inglês ou o que ele queria dizer com aquelas palavras, eu, encantada de encontrar alguém que citou a primeira linha de um dos meus poemas favoritos, continuei: “… Breeding lilacs out of the dead land, mixing memory and desire, stirring dull roots with spring rain. Winter kept us warm, covering Earth in forgetful snow, feeding a little life with dried tubers…” Foi um momento mágico.
Considerado por muitos o mais famoso — certamente não o mais popular – poema do século XX, The Waste Land é difícil de ler, pelas referências (em música diríamos citações), que vão de Baudelaire aos Upanishads, passando por Dante Alighieri, pela Bíblia e pelo serviço funerário do livro anglicano ” Common Prayer”, entre uma infinidade de outras. Mas se a certas passagens parece faltar um significado definido, não faz mal: sobra beleza. Vejamos o que ele escreveu ao dedicar o livro a Ezra Pound:
“Nam Sibyllam quidem Cumis ego ipse oculis meis vidi
in ampulla pendere, et cum illi pueri dicerent:Σιβυλλα
τι θελεις; respondebat illa:αποθανειν θελω.”
Esse texto é de ” Satyricon “, de Gaius Petronius. T.S. Eliot traduziu: “Vi com meus próprios olhos a Sibila de Cumas pendurada numa jaula, e quando os meninos perguntaram: “Sibila, o que você quer?”, ela respondeu: “Quero morrer”.
“Satiricon” é uma sátira escrita por Petrônio, um famoso libertino do primeiro século d.C. (No tempo do imperador Nero) e descreve as aventuras e desventuras de um gladiador liberto, Encólpio, de seu amante Ascilto e do seu servo intrometido Gitão, que provoca ciúmes e desentendimentos entre os dois amantes. Numa de suas aventuras, acabam como náufragos nas mãos de Circe, uma sacerdotisa do deus Príapo.
A citação usada por T.S. Eliot foi feita no banquete luxuoso, extravagante e decadente oferecido por Trimalquião, um nouveau riche romano.
A Sibila de Cumas era uma profetiza de grande beleza do deus Apolo, que quis tomá-la como amante oferecendo-lhe qualquer coisa que ela desejasse. Ela então pediu para viver tantos anos quanto fossem os grãos de areia de um punhado que tinha na mão (a handful of dust). O desejo foi concedido, mas ela recusou-se a tornar-se sua amante. Só que Apolo concedeu-lhe a vida longa, mas não a eterna juventude e com isso ela ia envelhecendo cada vez mais, sem conseguir morrer.
PS “Durante a Idade Média a Sibila de Cumas e Virgílio foram considerados profetas da vinda de Cristo, pois as Éclogas deste poeta parecem conter uma profecia messiânica feita pela Sibila – sendo isto apropriado pelos primeiros cristãos e, quando Dante Alighieri escreveu a sua Divina Comédia, escolheu Virgílio como seu guia pelo Inferno. Também por isto Michelangelo deu destaque à Sibila de Cumas na Capela Sistina, entre os profetas do Velho Testamento.”
Para as minhas darling friends Jael Coaracy e Nelita Leclery ( que me indicou a maravilhosa versão de The Waste Land da Touch Press para iPad – com duas leituras feitas pelo Eliot, uma em 1933 e a outra em 1947, além do Jeremy Irons e Eileen Atkins, Ted Hughes, Viggo Mortensen e Fiona Shaw) ofereço The Waste Land lida por Sir Alec Guinness, a minha favorita entre todas.

T. S. Eliot – The Waste Land – Alec Guinness (1/5) por poetictouch

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