”Eles & eu"

Por Ronaldo Bôscoli
O Sweet da Lucia é palpável e tem um cheiro ativo de mistério. Não conheço o gosto de Lucia. Imagino morangos silvestres. Sua boca muito vermelha denuncia e adverte perigosos abismos. Seus olhos grandes parecem sempre espantados diante do porvir, Lucia é mansa como um vinho bem servido. Durante o tempo em que ele ocupa o espaço de cristal. Depois, seria bebê-la, coragem houvesse.
Somos amigos profundamente íntimos. Coisa assim como café com leite. Fumegamos porque nossa conversa é candente. Mas somos amigos, porém. Rimos demais dos nossos amantes porque é sistemático o ciúme que todos exercem e exerciam quando nos encontram justamente esperando por eles. Lucia prometeu que levará o problema para a devida análise. Eu vou levar o mesmo caso para a cama, meu analista de molas fortes e de formato generoso.
Poucas pessoas entendem a atração natural. Confundem-se com a atração provocada. Ouço as queixas de Lucia e Lucia ouve as minhas queixas. É a mais nítida certeza de que não nos amamos. Ela já deixou lágrimas no meu ombro compreensivo.
Lucia não anda, flutua, flui mesmo. O tempo passa depressa. Olha Lucia cumprindo outro ciclo. Sabe, mulher que conversa mordendo canudinho de cocktail? Pois ela é assim. Uma timidez emoldurada por alguma coisa muito sensual que a gente supõe detectar. E erra. Se a Lucia bebe? Mas claro que não. Acompanha.
Um dia muito triste, que estava com um amor complicado, (ora veja)! chamou-me para um desafio prontamente aceito. Lucia tomou um pilequinho digno de uma Kay Kendall (os mais velhos saberão de quem estou falando). Ninguém era mais elegante do que Kay Kendall no pontinho da risada desatada, da confissão a qual a manhã fará aumentar a chamada ressaca moral. Aí ela aparece para almoçar escondida atrás de dois faróis negros. Pede um consomé e diz que está enjoada. Pede desculpas pelo que disse e muito mais por não ter vindo ao meu encontro devidamente maquiada. Vocês conhecem bem esse negócio de valores femininos, né? Pois Lucia é esse clima.
Faz muitos anos, quando militava na Manchete, queria conhecer a proprietária de um nome tão bonito. Justino Martins desanimou-me: ela mora em Paris, é fotógrafa de modas. Lucia – admite – queria me conhecer – pela afinidade que temos quando escrevendo. Na realidade, Lucia queria saber quem era ela em homem. Repito, ficamos muito amigos. Hoje ela é sócia da Marly Sampaio, num bar maravilhoso. Daí a explicação de tantos, tão sistemáticos encontros. O bar tem apenas vidros a separar-nos da chuva ou da lua.
Conto com ela e ela conta comigo. É um amigo de batom, cabelos lisos e curtos. Escorregadios. Poucas pessoas entendem Lucia. Inclua-se nessa lista ela própria. Mas ela convive bem com a sua parte oculta. E gira o canudinho no cocktail colorido. Para mudar de assunto ou emoção. Estranho. Olhamo-nos muito pouco”…
Eu tenho ótimas recordações. Olha o que eu achei escrito pelo Ronaldo Bôscoli – autor da letra de “O Barquinho” (para quem não sabe) e o primeiro marido de Elis Regina – na sua coluna “Eles & Eu” num dia do meu aniversário. Que presente, adorei. Ele me conhecia muito bem e era considerado a língua mais ferina do jornalismo na sua época.
Feliz Aniversário para todos os meus amigos cancerianos. Este ano perdi o meu cachorrinho amado no dia dos namorados e ainda estou tristíssima. Por isso não vou comemorar meu aniversário amanhã. Agradeço a compreensão.

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