Convite à reflexão

Eu sempre fui uma boa observadora dos fatos com espírito crítico. Fui a primeira a escrever, na página de opinião do Estadão, sobre a manipulação dos índios e a demarcação fraudulenta de suas terras, para atender a interesses escusos internacionais. Este artigo é do tempo de Matusalém, a ponta do iceberg, e comprova que o Presidente Bolsonaro tem razão. E de lá para cá, as coisas só pioraram.
Nunca fui de acreditar em mentiras de marketing. Certas coisas não fazem sentido, apesar da unanimidade com que são aceitas: são mentiras que parecem verdade, apenas isso, e não se pode subestimar o estrago que governantes corruptos são capazes de fazer. Escrevi este artigo a respeito dos ianomâmis no Espaço Aberto — O Estado de São Paulo. Na mesma página, a meu lado, tinha entre outros artigos de opinião, um que foi escrito pelo então Reitor da USP. Pena que clamei no deserto.

“Convite à reflexão — Lucia Sweet
Ao destinar 9,4 milhões de hectares para criar a nação ianomâmi, Fernando Collor conseguiu mais uma vez deixar o país perplexo. Visões distintas e paradoxais estão por trás das divergências entre os que são contra a enormidade da extensão demarcada e os que a defendem.
Que história é essa de se criar outra nação dentro da nação brasileira, constituída por representantes de todas as raças? O índio não está excluído. A exemplo do Parque do Xingu, que se faça o Parque ianomâmi.
No que diz respeito à questão indígena no Brasil, um fator fundamental está sendo ignorado: é correto transformar seres humanos em peças de museu antropológico?
Com um modo de vida compatível com a era neolítica, a curatela dos silvícolas deveria ser a preocupação fundamental. Será o índio objeto de preocupações de caráter humanístico ou apenas instrumento de um sofisticado lobby dos anos 90? É curioso o interesse que, entre mais de uma centena de grupos indígenas, só os ianomâmis parecem despertar. Será verdade que uma população estimada entre tres mil e dez mil índios precisa de área duas vezes maior do que o Estado do Rio de Janeiro, equivalente a três Bélgicas ou do tamanho de Portugal para sobreviver? Será a questão ecológica uma desculpa para encobrir poderosos interesses não revelados?
E poderosos são os interesses que estão em jogo por trás da questão ianomâmi. A gigantesca área que virá a ser demarcada corresponde, por coincidência, a uma das maiores reservas estaníferas detectadas no planeta, que, se fosse explorada imediatamente, produziria severas consequências na cotação internacional do metal. Coincidentemente, as entidades estrangeiras mais aguerridas na defesa da reserva ianomâmi são inglesas, assim como inglês é o monopólio internacional do estanho.
Foi do editor da revista inglesa The Ecologist, Nicholas Hildyard, o manifesto que ameaçou lançar o boicote à Rio-92 caso o Brasil não demarcasse as terras ianomâmis, O deputado trabalhista inglês John Battles veio pessoalmente ao Brasil, em outubro, para reclamar da demora dessa demarcação. O príncipe Charles, em artigo sobre a destruição das florestas tropicais úmidas, referiu-se apenas à região habitada pelos ianomâmis, citando-os nominalmente. Foram também is ingleses que mais comemoraram a decisão do presidente Collor. A Survival International suspendeu imediatamente as manifestações que fazia uma vez por semana em frente à Embaixada do Brasil em Londres, nas quais, durante três anos, foram exibidas faixas e cartazes a favor dos ianomâmis. Se esses fatos não servem para se tirar conclusões definitivas, pelo menos dão o que pensar. Talvez nem todos os súditos de Sua Majestade tenham pelas florestas tropicais úmidas o mesmo amor desinteressado da grande artista e botânica Margaret Mee.
Palavras e mágica já foram a mesma coisa. Mesmo nos dias de hoje, as palavras ainda conservam, em grande parte, esse poder mágico e são usadas, universalmente, para influenciar as pessoas. As palavras têm o poder de distorcer a aparência da realidade, quando é conveniente fazê-lo. Vamos esquecê-las para que possamos nos ater aos fatos.
A não-exploração das reservas de estanho traz consequências: perdem os interesses minerários brasileiros, mas ganham os interesses minerários ingleses. Se por um lado há interesses contrariados, por outro, há interesses que se beneficiam. Onde está a verdade? O momento requer lucidez, sem radicalismo. A questão ianomâmi é um convite à reflexão”.

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