O Quitandinha perdeu

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A Vila Madalena, um dos preferidos pontos de balada da noite paulistana, ferveu no início deste Carnaval. E não foi pela festa em si, seus apelos de folia e alegria, mas por mais um vergonhoso ato de covardia e desrespeito contra a mulher. Só que desta vez terminou muito mal para quem deu guarida aos agressores e os defendeu. Assunto batido? Não, desta vez houve reação.
O Quitandinha, endereço da contenda, poderia estar hoje usufruindo da presença de sua clientela cativa dessas noites quentes de verão, não fosse o fato de ter que responder ao verdadeiro massacre movido nas mídias sociais pelas duas vítimas, com direito a um chamamento no Facebook para que o bar feche. E o fato tornou-se um sucesso viral para a causa feminista, com mais de 40 mil compartilhamentos, milhares de curtidas e opiniões acaloradas pró, contra e controversas.
As duas personagens da história, Júlia e Isabella, foram alvo de agressão física e moral e xingamentos de todo tipo, dentro do bar, simplesmente porque rejeitaram a corte de dois machos alfas trogloditas, muito folgados, que se sentaram à mesa, sem ser convidados, se serviram de cerveja, enquanto os acompanhantes das moças saíram do recinto para fumar. Daí em diante só fatos a lamentar do gerente do bar e da PM, que se locupletaram com os playboys de quinta; dos donos do bar, que mandaram notas medíocres (que não colaram) à imprensa; e das vítimas que naquele dia só puderam chorar.
E o bafafá reverbera a cada vã tentativa do dono do bar de consertar a história. Ele declarou que em seus 25 anos, a clientela do Quitandinha é formada em 70% por mulheres e que jamais houve qualquer tipo de assédio moral às freguesas… e que as jovens em questão não aceitaram o apoio póstumo oferecido a elas – a gente repete por direito de livre expressão. E choveu mais esculhambação na mídia. Descobriu-se até que o empresário é sócio de mais cinco bares na região e já começa a divulgação dos nomes para boicote. Lastro de pólvora. Como defender o indefensável?
Esse ataque ao Quitandinha na rede social é um exagero? Para alguns machistas que opinaram entre os milhares é “canalhice psicótica de feminista”. Mas não. É só a ponta de um iceberg gigantesco da realidade da mulher na sociedade brasileira: que trabalha igual para ganhar menos no mercado de trabalho, enfrenta calada os pequenos e grandes machismos de cada dia na família, no serviço, no transporte público, no consultório médico e nas ruas.
O que fica de aprendizado desse triste acontecimento, que está longe de terminar, é que esse fato não destoa do triste quadro de violência contra a mulher no Brasil. As estatísticas dão conta de que três em cada cinco mulheres são agredidas, não em bares, mas dentro de casa, onde não há testemunhas. As mulheres são molestadas, espancadas e sofrem assédio moral de toda ordem, muitas vezes por motivos torpes, com consentimento velado da sociedade machista. As piadinhas, as gracinhas e tais uma hora têm que acabar. Mas nesse episódio, movido pela indignação e raiva de duas jovens que se sentiram injustiçadas, o Quitandinha perdeu. Que sirva de lição.

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