Brasília dividida

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Nesta semana, brasilienses e cidadãos de todos os cantos do país, quiçá do mundo, que transitam no entorno do Distrito Federal tomaram um susto daqueles. Uma enorme parede começava a ser erguida diante do Congresso Nacional sem que ninguém conseguisse entender o que era aquilo tudo. Aos poucos, as explicações começaram a circular pela Esplanada dos Ministérios.
A grande área aberta diante do Congresso Nacional, projetada há 56 anos para ser livre de bloqueios para o ir e vir das pessoas, sofreu uma intervenção física pavorosa, sob o apelo de que é necessário separar pessoas contra e pró-impeachment nas manifestações de domingo próximo, dia 17 de abril. À esquerda ficarão os brasileiros verde-amarelos e à direita brasileiros vermelhos. Coxinhas e mortadelas como dizem os piadistas de plantão. Bem assim. O que diriam Lucio Costa e Oscar Niemeyer disso?
Não interessa de quem foi a ideia, as razões e o quanto se pagou. A motivação é uma metáfora da realidade brasileira, em que a liderança da pátria não fala a língua dos cidadãos, mas a de sua militância. Fato comprovado em evento patrocinado pela Presidência da República, no qual apoiadores do governo promoveram o incitamento público, através de discursos agressivos à ordem, dentro do próprio Palácio do Planalto e diante da risonha presidente do país.
Voltamos aos tempos medievais, onde fossos eram construídos ao redor dos castelos para proteger os senhores feudais e suas pequenas urbes de possíveis ataques e invasões. Do lado de dentro dos muros soldados, interposições e armadilhas. Na torre, espias ávidos sempre à procura do inimigo. Devem ter sido tensos aqueles dias, mas hoje também o são. Só que os perigos vêm de dentro.
Ao longo do horroroso gradil palaciano, estarão fincados, dos dois lados, policiais militares, civis e forças da segurança para evitar que o povo enlouquecido atropele a muralha e se bandeie para o outro lado com foices e martelos. Enquanto isso a líder da nação, em sua torre, buscará motivos para se dizer injustiçada e refém das forças ocultas da direita, por isso não consegue governar.
A divisão da área em Brasília parece ter sido feita com base na contabilidade das urnas das últimas eleições. Mas será que hoje os eleitores ainda estão divididos assim quase metade para cada lado? Será que todos aqueles que acreditaram ascender de classe social, saindo da pobreza para uma consumista classe C, ainda estão em seus empregos e com seus inúmeros carnês quitados? Será que todos os que clamam por justiça social têm mesmo a cara da burguesia? O que é burguesia neste país afinal? Existe burguês desempregado passando fome?
Na Alemanha, o que sobrou do muro de Berlim ou da Vergonha, hoje serve só para contar a história dos tempos da Guerra Fria. Lá mesmo, onde alemães ocidentais e orientais foram alijados da convivência, enquanto comunistas e capitalistas sangravam os discordantes de suas convicções, o povo segue em frente e procura se esquecer de quando a cidade tinha dois lados. Todo mundo sofreu.
O muro de Brasília não foi construído só com as placas metálicas que custaram quase oito mil reais, mas pela mentalidade retrógrada e egoísta de quem vê o país como quer ver: dividido. O brasileiro não é beligerante, é pacífico, mas incitá-lo ao divisionismo não é boa escolha. Enquanto o Palácio do Planalto estiver olhando só para o seu lado, muitos flancos serão abertos no invisível muro dos preconceitos e desigualdades sociais do país. Não queremos isso.

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