As lágrimas do Obama

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Uma das imagens mais mostradas pela mídia, na semana passada, foi o choro comovente do presidente dos Estados Unidos Barack Obama, ao relembrar as chacinas em escolas durante o seu governo. Como o sangrento ataque ocorrido em dezembro de 2012, em Connecticut, onde 28 pessoas foram brutalmente assassinadas, a maioria crianças. Ele está sozinho na defesa da restrição de porte de armas em solo americano, mesmo com esse apelo dramático, e pode se debulhar em lágrimas porque não vai convencer ninguém.

Sem maioria no congresso e com o porte de armas garantido pela Segunda Emenda à Constituição de 1791, dificilmente Obama conseguirá em seu mandato mudar algo que sempre fez parte do estilo de vida americano. Até porque não há nada tão previsível do que o efeito colateral em um país belicista, que detém a metade do mercado armamentista mundial, que movimenta hoje US$ 1,5 trilhão ano. Cerca de 40% do orçamento americano é destinado à defesa. Ou seja, não há nada mais rentável do que “vender paz” e chorar.

E as lágrimas só valem para as crianças de lá, porque as do resto do mundo, onde armas americanas matam pelas mãos dos outros, não contam. Ademais crianças participam de treinamento militar nos Estados Unidos, onde aprendem a lidar com as coisas da guerra de forma natural e a identificar o inimigo.

É tudo uma grande hipocrisia. O país lidera também as exportações da indústria bélica, seguida pela Rússia e Alemanha – só para citar os três maiores. O terceiro lugar ranking varia e é hoje disputado pela China.

Essa indústria trilionária vem ganhando peso desde a II Guerra, em especial sob as cinco estrelas do general, presidente e herói americano, Dwight Eisenhover, comandante das tropas aliadas nos desembarques à Normandia. Entre os anos 1950-1960, quando se tornou presidente, ele que criou o termo “complexo militar-industrial”, para justificar o aporte orçamentário à indústria de armamentos no país. Fez guerra pelos aliados, tratados de paz, mesmo com a China, quando já azedavam as relações com a antiga União Soviética. Mas o inimigo sempre esteve à espreita.

Entre os maiores compradores de armamentos, a Arábia Saudita lidera de longe, seguida pelos vizinhos Emirados e Omã, todos armados até os dentes contra o Irã dos aiatolás, um ranço que vem de longe, desde os temidos persas. E o que fermenta aquela região é a beligerância de fronteiras e, óbvio, o interesse pelas fontes de petróleo. Lá do lado, no Iêmen, o mais pobre da península arábica, há uma guerra em curso e os parceiros Estados Unidos e a Arábia já fizeram ataques aéreos e de artilharia pesada, matando civis, porque os xiitas “houthies”, braço político armado local, questionam o atual governo e são acusados de receberem treinamentos e armas do Irã. Mas essa é outra história e bem comprida.

O fato é que a indústria da guerra desde sempre precisa de conflitos para se manter. Grupos terroristas como Al-Qaeda, Boko Haram e Isis, os mais conhecidos no momento, são café pequeno nesse cenário, porque compram armamentos no mercado negro e nem de longe os arrojados e devastadores. A campanha feita por eles só serve para justificar que as armas são necessárias para se combater o inimigo. E armamentos hoje não são só fuzis e munições, que caem mais facilmente nas mãos desses grupos, mas caças, submarinos, tanques pesados, aviões cargueiros, helicópteros de ataque e transporte, bateria antiaérea, mísseis e por aí vai a humanidade, com todas as suas criancinhas. No íntimo, o Obama não está nem um pouquinho triste. É toma lá, dá cá.

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