21 de maio de 2022
JR Guzzo

A política e as Redes Sociais


Quando o que era impossível começa a acontecer cada vez com mais frequência, é bom prestar atenção — pode acontecer de novo.
A última demonstração concreta desse mundo em mutação radical foi a moagem, desmembramento e morte política de Renan Calheiros, tido como invencível (até cair morto) por 101% das pessoas que “entendem de política” neste país. E agora: alguém tem algum fato para sustentar que as surpresas, enfim, pararam aí — que este foi o último episódio de intocável que de repente vira farinha de rosca?
Renan foi liquidado pelas redes sociais, simplesmente — tenta-se desesperadamente demonstrar que não é “bem assim”, ou “nada assim”, mas não adianta nada, porque é isso mesmo.
Ainda há pouco, em outro episódio de primeiríssima grandeza, Jair Bolsonaro foi eleito pelas redes sociais, com zero de ajuda da televisão, milhões de reais, jatinhos ou mídia; ocorreu o exato contrário do que diziam quase todos os comentaristas políticos e os “institutos de pesquisa”. Lembram-se? Os Ibopes e DataFolhas garantiam até o dia da eleição que Bolsonaro perderia para “qualquer adversário” no segundo turno. É difícil errar mais do que isso.
As redes calaram a pretensão do Congresso em “negociar pesado” na formação do ministério; os políticos, que iriam “dobrar o governo”, tiveram de engolir com casca e tudo o primeiro escalão que está aí —inclusive com uma dúzia de generais dentro. As redes anularam qualquer possibilidade de soltar Lula no tapetão, com jogadinhas de advogado “garantista”.
Podem levar o Congresso a cassar mandatos, autorizar processos penais contra seus próprios membros e permitir que gente habituada a viver acima da lei durante toda a vida acabe na cadeia. Podem aprovar reformas e novas leis que, de novo, toda a mídia sempre deu como “impossíveis”.
Diante disso, os ministros do STF bem que poderiam começar a pensar nos seus próprios couros. Desde que acabou o regime militar, transformaram-se numa espécie de orixás que nenhuma força do mundo é capaz de tirar do emprego; dois presidentes da República já foram para o saco, mas os toffolis, e gilmares, e lewandovskis, etc. continuam agarrados no osso, mais firmes que o Pico da Bandeira na Serra do Caparaó. Mas e daqui para frente, com esse temporal que está ficando cada vez mais bravo — vão continuar fora da lei?
Coisas que nunca aconteceram antes sempre podem, por definição, acontecer uma primeira vez. As redes sociais, que estão construindo realidades brutalmente inéditas neste país, podem , muito bem, ir para cima de qualquer sultão do STF e cobrar o seu impeachment de um Congresso com pouca estamina para enfrentar o ronco da rua. Era impossível. Não é mais.
A batata de Suas Excelências já pode estar sendo assada por aí.

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Jornalista. Colunista dos jornais: O Estado de S. Paulo, Gazeta do Povo e da Revista Oeste

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