Gestores da calamidade

Desde o início da pandemia, a educação pública em São Paulo vem sendo dirigida por sindicatos de professores, médicos oficiais e um consórcio de burocratas e políticos

São Paulo está entrando no segundo ano seguido com as suas escolas basicamente fechadas; elas até podem funcionar, mas só com 35% da sua capacidade e de forma “híbrida”, como dizem os gestores dessa calamidade. Para dois terços dos alunos, aulas “presenciais” – o único tipo de aula que existe na vida real – continuam proibidas. Os alunos devem ficar sentados em casa na frente dos computadores e, como no ano passado, fazer seus cursos online; no fim do ano serão de novo aprovados para a série seguinte, mesmo que tenham aprendido o equivalente a três vezes zero.

O anúncio foi feito com a naturalidade com que se anuncia os horários de funcionamento para os shopping centers, os borracheiros ou os parques aquáticos. “Qual é o problema?”, perguntam os responsáveis pela decisão. Qualquer coisa, é só procurar o serviço de atendimento digital que está aí para resolver as emergências. Todos eles, ali, vivem num mundo onde tudo se resolve online, no home office e no delivery; não há, para os habitantes dessa bolha, a necessidade de uma vida fora de “casa”.

A pergunta mais sensata que se poderia fazer diante disso tudo é a seguinte: “Os médicos, os professores e as autoridades enlouqueceram?” Não bastou, pelo jeito, manter as escolas fechadas durante o ano de 2020 inteiro; querem dobrar a aposta e repetir a dose em 2021. E depois, se a mídia continuar anunciando 1.000 mortes de covid por dia? As aulas “presenciais” serão suspensas por um terceiro ano consecutivo? E depois? E no ano seguinte?

Para dois terços dos alunos em São Paulo, aulas ‘presenciais’ continuam proibidas Foto: Epitácio Pessoa/ Estadão

Nunca, em nenhuma hipótese, os que resolvem essas coisas levam em conta que o mundo desenvolvido, onde os índices da educação pública são umas 150 vezes melhores que os do Brasil, fez questão de manter as escolas abertas durante a maior parte do ano letivo de 2020. Não dá para dizer que a covid esteja sendo mais camarada por lá. Ao contrário: Itália, Inglaterra, França, Espanha, Suécia, Estados Unidos e outros tantos países têm mais mortes que o Brasil por grupos de 1 milhão de habitantes.

Também não é uma boa ideia perguntar aos gestores da covid qual a sugestão que eles fazem para os milhões de alunos que não dispõem de computadores, nem de pais com tempo livre para ficarem acompanhando as lições ao seu lado. Muitos, nos fins de mundo à beira do Rodoanel e outras quebradas, não têm nem escolas; imagine-se, então, escolas online. A qualquer observação desse tipo, os que mantêm as salas de aula fechadas vêm com uma resposta automática: “Negacionismo”.

Desde o início da pandemia, a educação pública em São Paulo vem sendo dirigida por sindicatos de professores, médicos oficiais e um consórcio de burocratas e políticos – com a colaboração de muitos grupos de pais de alunos e outros crentes do “distanciamento social”. As autoridades que assinam atos administrativos e aparecem nas entrevistas coletivas foram atropeladas; suas declarações são, na maior parte do tempo, apenas um reflexo das forças que estão realmente tomando as decisões. Vai ser difícil mudar isso.

Fonte: Estadão

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