21 de maio de 2022
Joseph Agamol

Uma historinha de Sexta Feira Santa


Sou vítima frequente de faladores compulsivos – já tentei de todas as táticas, das mais corriqueiras, como me esconder atrás de um livro, até as mais bizarras, como me fazer de surdo. Pouca coisa funciona.
Quando ainda morava no Rio, pouco antes da Páscoa, peguei um táxi. E – surpresa ! – o papo foi bem legal.

(taxista): parece que vem chuva no feriadão, né?
(essa introdução é clássica e deve constar em um hipotético Manual de Abordagens dos Faladores Compulsivos)
(eu, adotando a expressão compungida de “e lá vamos nós outra vez…”): hum-rum…
(taxista): parceiro, tem coisas que… mistérios… que a gente não consegue explicar, né?
Eu fui criado numa vila e tinha muito passarinho, sabe? Canário-belga, cantaaaaaaavam que era uma beleza, o senhor só vendo, rapaz!
(eu, a essa altura meio confuso com a mistura de tratamentos, senhor, rapaz, mas começando a me interessar pela história – vício de leitor, e o cara era um bom contador de histórias, ora bolas): a-hã…
(taxista): então, todo dia de manhã eu pendurava os bichinhos no sol…
tinha um monte de prego na parede, eu ia lá, e pendurava, eles tudo tomava banho, comia, cantava, uma beleza!
Quando chegava a Sexta-feira Santa… mermão, a minha avó dizia… minha avó era rezadeira, pessoa muito religiosa, e ela dizia: “garotinho, eles vão tomar banho, vão comer, mas hoje não vai ter cantoria, não…”
Dito e feito! Os passarinhos tomavam banho, comiam, mas NÃO CANTAVAM, você acredita?
Parceiro, tem coisas que… mistérios, sabe? Que ninguém consegue explicar!
Desci do táxi achando que a corrida foi curta e pensando nessas tais coisas que a gente não consegue explicar.
E naquelas que o mundo moderno jamais vai conseguir recuperar, talvez:
a religiosidade simples, a fé verdadeira, as rezadeiras, os pequenos milagres do dia a dia, os passarinhos que não cantavam na Sexta-feira da Paixão…
E agradeci mentalmente ao taxista que, provavelmente sem nunca ter lido Guimarães Rosa, me fez sentir como que ouvindo Riobaldo Tatarana.

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Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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