Um país com vocação para jagunço


Quando eu era um jovem lobo, idealista e boboca como quase todo jovem, me meti a ajudar o Brasil.
Sim, mesmo sem ser capaz de achar o caminho para um prostíbulo, ainda que a meretriz me puxasse pelo… cabelo (hahahaha peguei vocês, né?!), eu achava que podia ajudar o país.
Portanto, me inscrevi em um projeto da Cruz Vermelha Brasileira, que buscava replicar a essência do antigo projeto Rondon: enviar jovens bobocas e arrogantes como eu para as vilas nhocunhé nos fiofós do Brasil, a fim de colher dados e auxiliar de alguma forma populações tão carentes.
Isso foi no final dos anos 80, início dos 90. E lá fui eu para um sertão no interior de Minas, lá perto de Pirapora (não, não é a mesma da canção linda do Renato Teixeira), numa paisagem misto de cerrado e caatinga que poderia facilmente fazer parte de Grande Sertão: Veredas.
(Eu sei que cito muito Guimarães Rosa, mas citar Guimarães Rosa nunca é demais. Tenho vontade de, quando estou no exterior, usar uma camisa assim: “nasci no país de Guimarães Rosa”. Guimarães Rosa é um dos poucos orgulhos que sinto em ser brasileiro)
Então. Fui parar lá, nessas veredas, mas na época era jovem e besta, como disse, e nem sonhava em ler Guimarães Rosa, mas ainda tenho fotos da paisagem agreste e do Rio São Francisco – passei um dos maiores perrengues da minha vida caminhando sobre uma ponte de madeira, suspensa a uns 30 metros, sobre o rio. Depois conto. Depois também procuro as fotos, tiradas com minha velha Kodak Tira Teima, alguém aí teve uma?
Era para ser um texto pequeno, viu? Mas eu vou me alongando, amiudando a fala, imagino vocês sentados em volta escutando e… vira troço para vinte laudas. Mas enfim.
Uma das nossas funções era entrevistar os moradores. Numa dessas, numa cabana simples de pau-a-pique, eu e uma parceira – íamos sempre em duplas – entrevistávamos um senhor de idade indefinida. Na pergunta: “em que o senhor trabalha?” obtivemos a seguinte resposta:
– ih, moço… eu encomendo o vivente.
Minha parceira ficou me olhando com uma expressão de patética surpresa no rosto, e eu pude lê-la com facilidade: “será que ele é padre?”
Eu adivinhei de supetão.
Jagunço.
O cara era matador de aluguel.
Sorri amarelo que nem o Pernalonga quando fazia uma lambança, levantei, peguei minha companheira pelo braço – ela sem entender lhufas – e agradeci, mas estava tarde – eram só duas horas, pombas! – mas a gente ia pegar a estrada.
Minhas pernas pareciam formadas por uma mistura de sagu com mingau de Maizena, mas consegui sair dali.
“Tive medo, não. Só que abaixaram meus excessos de coragem.” Preciso dizer de onde é a frase?
Isso foi há uns 30 anos. Eu achava que esse Brasil tinha ficado no passado. Achava mesmo que a modernidade tinha sepultado essa nossa essência.
Isso até ouvir o insólito relato do nosso ex-procurador.
O Brasil sempre foi assim, e provavelmente sempre será, amigos e vizinhos.
Parafraseando mais uma vez o mestre Guimarães, o Brasil é isso: a gente o empurra para trás mas de repente ele nos envolve pelos lados.
Um país com vocação para jagunço.

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