Um Brasil mais doce e sutil

Eu guardo na memória um Brasil mais doce e mais sutil. Caso ele não regresse, um dia, eu contarei aos outros que ele existiu.
Foto: Otto Stupakoff
As bancas de jornais e revistas acendendo as luzes na madrugada, na Lapa. Os vendedores de vassoura no subúrbio. O fotógrafo lambe-lambe na praça da Matriz.

Eu vejo claro em minha mente os tapetes de sal de Corpus Christi. Os peixinhos dourados em sacos plásticos com água flutuando na feira livre.
Os sorvetes de máquina enovelando-se na casquinha diante do olhar ansioso.

A água bebida na mangueira, na calçada, os chinelos marcando as traves na rua, Kichutes, congas e havaianas sem cores.
O pôr de sol visto do alto do Morro do Adeus, o Rio tingindo-se de Van Gogh. As chuvas de janeiro e fevereiro, quando as águas eram verdadeiramente de março.
Contar balões nas noites coalhadas de estrelas. Esperar a noite de São João, a mais fria.
Os pés descalços, o colo de mãe, o café com pão embrulhado no papel cinza.
Garrafas de leite à porta das casas. Os apitos dos guardas noturnos. O som, o sono, o sonho.
Eu guardo escondido na memória o tempo de um Brasil mais doce e sutil.
Caso ele não regresse, um dia, eu contarei aos outros que ele existiu.
Como Tom Jobim, que nos olha distraído, na praia, em um dia envolto em névoa, no Rio de 64.

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