2 de julho de 2022
Joseph Agamol

“Todos os animais são iguais. Mas alguns animais são mais iguais do que os outros”

(Créditos da imagem: Avi Katz)

A frase de “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell, me veio à mente, de novo, após alguns acontecimentos que se sucederam numa espécie de cascata nessa semana.
Todos aparentemente desconectados entre si – mas que guardam, não só uma ligação íntima, mas uma poderosa lição para quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir.
Recapitulemos.
1 – uma deputada esquerdista tentou humilhar a ministra Damares, fazendo mofa com o episódio de “Jesus na Goiabeira” – a ministra revidou, de forma até tímida, mas elegante e emocionada, à vileza do ataque, que, mais uma vez, transformou o drama pessoal da ministra em matéria de chacota.
2 – ainda em relação à ministra Damares: ao elogiar um deputado esquerdista, ouve uma resposta galhofeira fazendo outra alusão ao “Jesus na Goiabeira”. Será que alguém ainda acha remotamente alguma graça nisso?
3 – uma deputada petista ganha uma ação contra o humorista Danilo Gentilli, que é condenado a 6 meses de prisão. Por uma piada. Se é de gosto duvidoso ou não, cabe a cada um julgar. Mas não me parece motivo para uma condenação jurídica.
4 – um humorista-intelectual carioca, (ou, se preferirem, nem uma coisa nem outra) dispara, em um discurso em que palavrões são usados como pontuação, impropérios gravíssimos contra a PESSOA do ministro Sérgio Moro, atingindo a honra de uma elevada personalidade na hierarquia republicana.
Assim, como se faria em uma discussão de boteco, só que gravado, filmado, documentado. As agressões absurdas e descabidas parecem ter sido proferidas até com orgulho.
5 – o candidato a poste ou poste-candidato, como queiram, se envolve em uma polêmica com um dos filhos do presidente Bolseiro e, à falta de argumento melhor no debate que se estabelece via Twitter, insinua que o adversário é homossexual.
Como se ser gay fosse matéria de chacota, galhofa, mofa, algo para ser brandido durante um debate, que deveria ser de ideias. Não de preconceitos.
Os fatos estão à mesa, amigos e vizinhos. O que deles podemos concluir?
É óbvio, claro, cristalino e redundante que, para essa gente, leis, ética, princípios de conduta, a mais básica da educação só é relevante e passível de uso se for entre seus pares.
E que, apesar de sua crosta de refinamento e elegância, forjada nas Sorbonnes do mundo, eles, em sua essência, são exatamente aquilo de que nos acusam e fingem combater:
Podem ser chulos ou chucros, arrogantes ou preconceituosos, mas, ao fim e cabo, o que são mesmo e o que representam é um autêntico projeto de ditaduras: são verdadeiros adversários da multiplicidade de ideias e pensamentos.
Para essas gentes, eu me atreveria a corrigir a frase de Orwell:
Todos os animais são iguais. Mas alguns são mais animais do que os outros.

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Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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