Sobre fraturas e restauros

Foto: Tadahisa Hagiwara
Fiquei matutando sobre quebras e junções.
Fraturar é fácil, moleza, vapt-vupt: um descuido, uma distração, um piscar de olhos e tá lá, inteiro no seu vídeo, um osso fissurado, descontinuado, partido.
Parece irremissível, irremediável, impossível.
Mas o fato é que há um cimento, uma cola, um visgo.
Há tempo.
Eu comparo o mundo hoje com uma fratura:
Inesperada.
Há que se cuidar, há que se recolher, juntar os cacos,
Unir.
Fragmentos.
Vai demorar. Não vai ser fácil. Haverá momentos de alguma dor.
Mas o osso partido, o mundo que parece perdido, vão se soldar novamente.
Amálgama.
O produto desse processo de restauro, de ourivesaria física, mental e espiritual talvez não seja mais bonito ou melhor.
Mas o que vier a emergir dos fragmentos terá cicatrizes, terá orgulho delas e será infinitamente mais forte.
De uma força que só quem se viu quebrado em mil fragmentos e se recompôs do pó e dos cacos poderá ser.
Que da fratura tenha nascido um deserto, tudo bem: que saibamos do deserto engendrar um jardim japonês.

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