Sim, não gosto de carnaval


Meus amigos sabem o pouco apreço que nutro pelo chamado tríduo momesco.
Que, aliás, de “tríduo” não tem mais nada, viu?
A encheção de saco começava, quando eu vivia no Rio, pelo menos uma semana antes e terminava uma semana depois.
E não compartilho do sentimento dos saudosistas que garantem que “antigamente se brincava mesmo o Carnaval!”!
(Frase que é proferida acentuada por olhos baços de saudade e com mais intensidade quanto maior o teor alcoólico de quem a pronuncia.)
Aliás, até a expressão “brincar carnaval” é insólita para mim.
Já que, desde sua origem (o Entrudo do Rio de Janeiro, nos idos dos séculos XVIII), “brincar carnaval” consistia em descarregar o conteúdo fétido de bexigas nauseabundas repletas de urina e outros líquidos repugnantes nos transeuntes incautos.
Não sei quanto a vocês, mas isso não me parece diversão ou brincadeira se você está entre os alvos.
O que prova que, desde os primórdios, o Rio de Janeiro se dividia entre os que adoravam essa festa abominável e os que, como eu… a abominavam.
Tanto que o tal Entrudo foi proibido por volta de 1850 – infelizmente, as nossas autoridades sempre primaram pela incompetência e não coibiram com o rigor que deveria, já que o Entrudo sobreviveu e proliferou, que droga.
Ou seja, não é que o Carnaval de hoje seja ruim: ele sempre foi isso aí mesmo, só mudando os personagens e os limões de cheiro.
(Se você teve paciência e desperdiçou segundos preciosos de vida lendo esse meu destilar de mau humor, saiba que, se já leu alguma crônica carnavalesca minha, o que vem a seguir é mais do mesmo: horror, desespero e desprezo pela humanidade em graus cada vez maiores. Prossiga por sua conta e risco)
Certa feita, em um carnaval, me atrevi a ir da Marina da Glória ao Bairro de Fátima, onde morava, caminhando. E o que vi pelo caminho poderia facilmente caber em uma tela de Salvador Dali – daquelas dos relógios que escorrem – ou em um poema de William Blake.
Batalhões de espartanos da casa Turuna – quem é do Rio conhece – trajando apenas um fio dental e capacete, rebolavam em meu caminho;
Um gladiador de uns 2 metros de altura, calçando sandálias à Yul Brynner em um épico de Cecil B. de Mille, e ostentando uma vistosa peruca cor de abóbora, desferiu-me um olhar malicioso.
Uma anjinha que, pela idade, deveria ter sido criada na primeira leva antes dos humanos, antes mesmo de Noé, passava um batom escarlate e piscava para mim, sorrindo com seus 17 dentes restantes – e nenhum bom senso.
Além de cordões de marmanjos fantasiados de ABELHAS, com bumbuns amarelos e pretos e tudo. Juro!
Segui em frente corajosa e audaciosamente e, ao passar pela boate Rio 40 Graus (nome anacrônico que já caducou há pelo menos 5 verões) recebi o golpe de misericórdia na pouca fé que tenho em nossa espécie:
um sujeito fantasiado de Pã (sim, PÃ, o deus grego dos bosques e pastores) segurava uma taluda espiga de milho e praticava fellatio com a mesma, diante de algumas meninas basbaques que morriam de rir.
Não, amigos e vizinhos, o Carnaval não mudou. Sempre foi isso aí mesmo. Que droga, viu?

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