23 de maio de 2022
Joseph Agamol

Rio 454


Hoje o Rio de Janeiro faz aniversário. E eu desejaria ter coisas boas a dizer.
Eu era um moleque metido a sabido que morava ali no sopé do Morro do Adeus, entre Bonsucesso e Ramos, zona norte do Rio – ou a periferia, como se chamam esses lugares mais pobres em outras plagas do Brasil.
Corriam os anos 70, que os professores apelidaram de “Anos de Chumbo”, em uma de suas narrativas que persiste até hoje.
A História é contada pelas bocas dos vencedores e a Esquerda venceu por W.O. a guerra cultural – estamos até hoje tentando reverter essa parada, está 7×1 para eles, mas não desistimos.
Pois bem: meu avô às vezes me levava para ir lá em cima do Morro do Adeus – o moleque que eu fui adorava as escaladas, a sensação de olhar a cidade do alto, e o prazer de vencer a subida.
O único medo que sentia era das cabras semi selvagens que habitavam aquelas altitudes. É, cabras.
Há quase três anos não volto ao Rio, incrustado aqui no meu autoexílio doméstico no interior de São Paulo.
Morava na Lapa até 2015, e o simples caminhar por aquele que é um dos pontos turísticos mais visitados do Brasil revelava um cenário digno de uma tela de Hieronymus Bosch ou Goya:
Hordas de “meninos” portando facas, giletes ou qualquer coisa à guisa de arma atacando idosos e mulheres à luz do dia.
Eu só era poupado provavelmente por apresentar um custo beneficio ruim para as “crianças”, por ter 1,90m e quase 100kg.
Mendigos, vá lá, “fazendo amor” em praças à luz do dia.
Corrupção desenfreada à luz do dia.
TUDO à luz do dia, como se fosse assim mesmo, como se sempre tivesse sido assim.
Não é.
Não era.
Nos anos 70 havia um moleque ranhento que ouvia Secos e Molhados e Creedence Clearwater Revival e Beatles que subia o Morro do Adeus com seu avô e só tinha medo das cabras.
O que fizeram do meu Rio de Janeiro.

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Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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