Retrato granulado em branco e preto do Rio


Há um tempo, vi, na página de um dos meus contatos, a foto de um casal praticamente fazendo sexo na praia. À luz do dia.
Quando o Rio não era uma trans-cidade (ou seja, quando não estava se tornando outra coisa, projetada pelos revolucionários do Leblon) havia muito sexo, sim.
Só não era assim, a céu aberto, um macho abaixando a roupa da fêmea, na frente de crianças, idosos, mulheres, pessoas comuns, enfim, que devem considerar que saliência, como diziam os antigos, é bom demais, mas nos recônditos dos seus lares.
Quando o Rio não era uma trans-cidade, que não só permite como incentiva a saliência diurna, havia outros prazeres.
Bom era pegar uma sessão do Metro Boavista, ali ao ladinho da Mesbla, no Passeio, Centro do Rio – mas antes comprar aquela barrona de chocolate Kri.
Hoje não tem mais Metro Boavista, nem a Mesbla e até o chocolate Kri mudou de nome e a barrona encolheu, já tomaram ciência?
Bom era ligar o rádio e ouvir João Gilberto cantando “All of Me”, em versão ricamente filigranada e mesmo assim delicadíssima. Biscoito fino e que todo mundo comia. Tocava na rádio. João Gilberto. All of Me. Acredite.
Bom era quando no Verão o calor chegava aos 40 graus e isso era manchete do Jornal Nacional – o clássico, o vintage, com Cid Moreira.
Bom era a pizza da Parmê, andar na Floresta da Tijuca sem medo, bom era a única linha do metrô sempre vazia, o Maracanã sempre cheio, bom era caminhar na praia no Outono carioca, aquela chuvinha fina e fria, convidando a cafés, chocolates, abraços e achegos.
Como nessa foto do Tom.
O Rio que eu amo ficou capturado para sempre nessa imagem.
Nesse retrato granulado em branco e preto.
Um dia a cor há de retornar ao Rio?

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