Quarentena

Foto: Google – GaúchaZH

Sou o tal produto do morro, aquele que vocês devem ter ouvido em algum samba famoso por aí. João Nogueira? Dicró? Eu ouvia muito samba quando era moleque, ali, entre Bonsucesso e Ramos, zona norte do Rio.

Produto de uma família extremamente musical e sem preconceitos mesmo, lá em casa todo mundo era bamba, como na canção do Martinho, todo mundo bebe, todo mundo samba.

Mas também se ouvia Beatles e Creedence, Roberto Carlos e Trini Lopez – e digo mais: na televisão, se passava jogo do Vasco, eu, mesmo sendo torcedor do Flamengo, assistia e vibrava, acreditem.

Era o “mais amor por favor”, de verdade, sem hipocrisia.

Minha família passou por um período, não de prosperidade, mas de tranquilidade financeira: todos os adultos trabalhavam, os piás estudavam ou arranjavam confusão, guris sendo guris, isso até meados dos anos 70, início dos 80, quando os ventos começaram a mudar.

Da minha casa deliciosamente sincrética de antes, com os domingos tendo galinha na mesa farta e cerveja preta portuga do meu avô que me fazia bigodes de espuma, porque é o que me deixavam beber, passamos a uma rotina hard pacas.

Eu acordava de manhã sem saber qual seria o almoço. SE teríamos almoço. Era um suspense diário. Normalmente era feijão, arroz e variações de ovo: segunda cozidos, terça fritos, quarta mexidos, quinta omelete, sexta, ovos em cima do repolho – se fosse um dia de sorte e repolho houvesse.

Esse perrengue durou até eu entrar para a UERJ, me formar, começar a lecionar, sair de casa, e outro mundo estar se formando, se apresentando para mim e para os outros.

Mas nunca esqueci dos almoços lá perto da Praça das Nações, onde eu inventava aventuras com o prato de feijão, arroz e ovo na minha frente, tentando fazê-lo parecer algo diferente, do copo de geleia de mocotó Inbasa no qual bebia água – se fosse dia de festa, quem sabe rolava um guaraná caçulinha da Brahma ou um Ki-suco de morango.

Todo esse lero-lero (essa eu trouxe dos anos 70, como esse texto e essas lembranças: juro, tô sentindo o cheiro do guaraná caçulinha e até pus Clara Nunes e Martinho pra tocar no Spotify) foi para dizer que eu, hoje, posso ficar em casa, aguardando que os ventos sejam favoráveis de novo. Um dia serão.

Um dia voltaremos todos a caminhar sob o sol outra vez – vai ser bonito como uma gota de óleo na calçada, como dizia Ferreira Gullar.

Mas eu não consigo parar de pensar que, nesse momento, um garotinho como eu fui, no Complexo do Alemão, em Paraisópolis ou no Pelourinho, pode estar indo dormir pensando: será que vai ter omelete amanhã?

Esse texto não pretende ser contra nem a favor da quarentena, muito menos pretende influenciar alguém a fazer qualquer coisa, talvez só lembrar de Martinho da Vila mais uma vez:

“Canta canta minha gente
Deixa a tristeza pra lá
Canta forte, canta alto
Que a vida vai melhorar…”

Notícias Relacionadas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *