O fim do McFish

Ontem fui ao shopping cedo. Quase tudo fechado. Procuro uma hamburgueria de sanduíches – é “sanduíche”, viu, não é “lanche” – metidos a besta dos quais aprendi a gostar desde que vim exilado para São Paulo, e… debalde. Tive que me ajeitar com o não tão bom mas velho McDonald’s. Entrei na fila inexistente. A atendente, nitidamente enfastiada, me observou como se eu fosse um daqueles bichinhos que surgem quando se levanta uma pedra:

  • pois não?!
  • quero um McFish.
  • oi?!
  • um McFish – grasnei, alegremente. ‘Cê sabe, aquele de peixe.

E completei a frase fazendo um gesto que, em minha sórdida imaginação, representava um peixe. Ela encarou, com certeza imaginando um, sei lá, tricerátopo.

  • ahhhh, moço! Ele não é mais fabricado.

Quase li em seu olhar: “tadinho do véio, tá tão cringe que nem sabe que esse lanche não existe mais”.

Desisti de comer. Não perdi propriamente a fome, mas a vontade esmaeceu. O McFish sempre foi meu sanduíche preferido, no Rio. Mas era mais do que isso, era o tal símbolo de uma era. Uma era na qual eu era muito, mas muito mais jovem e bobo – e com suas múltiplas alegrias e prazeres, como quase tudo no mundo.

Quando eu saía da Escola de Música Villa Lobos, ali no Centro do Rio, violão a tiracolo, e caminhava até o Mac da Cinelândia. A grana era curta, o tempo era longo, ou ao menos eu assim pensava, e comprava dois sanduíches, um ingresso para o Metro Boavista, ali, ao lado da Mesbla, e assistia a todas as sessões, saindo só com a noite cerrada no Passeio Público, com suas árvores bicentenárias e os olhos dos gambás e gatos do Passeio luzindo na escuridão.

Pegava o 350, Passeio-Irajá, sentava no último banco, e desfrutava da paisagem carioca, quando ela não era tão cinzenta, o caminho pela Rio Branco, o Obelisco onde os gaúchos amarraram seus cavalos no início da Era Vargas, uma parte do litoral, a Glória com seus rapazes delicados e alegres, como cantava Belchior na canção “Alucinação”, a Presidente Vargas, a Central do Brasil, a avenida Brasil até o subúrbio profundo, no qual o garoto alto, cabeludo e sempre com aquele senso de inadequação, de não pertença, que eu fui, descia.

O menino ajeitava o violão nas costas – parecia um par de estranhas asas projetando-se dos seus ombros. E lembrava do McFish guardado na mochila.

Ele sorriu, feliz. Tinha todo o tempo do mundo, pensou.

E um McFish.

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