O dia em que fui a um asilo

 

Foto: Ian McKellen, por Rory Lewis

A primeira vez, lembro como se hoje fosse. Eu estava no Colégio Estadual João Alfredo, em Vila Isabel. Lindíssimo, tinha sido, no passado, uma fazenda de café. Preservou suas instalações – e até a senzala, um subterrâneo triste e cinzento, de entrada vedada aos alunos, mas na qual uma vez me aventurei. Essa é outra história.

Então. Eu, com meus 17 para 18 anos, era integrante de uma das várias turmas da fina flor da marginália da escola. Formávamos um todo heterogêneo de coisas-ruins: pichadores? Quase todos. Praticantes de pequenos furtos nas Lojas Americanas da Tijuca? Vários. Matadores de aula? Ô. Adeptos do bullying, que na época, início dos anos 80, não tinha esse nome? A maioria. Namoradores compulsivos de salas vazias? Alguns, inclusive este que vos fala.

O diretor era o lendário João Batista. Digo lendário porque assim ele se tornou, para os que tiveram a sorte de conhecê-lo. Eu tive dupla sorte, porque, além de diretor, ele era o professor de português da minha turma. E o J.B., como era chamado, carinhosamente ou não, me salvou de um futuro de delinquência. Acho que contei essa história uma vez. Rememoro.

Na talvez maior das minhas inconsequências juvenis, o J.B. me chamou à sua sala. Entrei, eu, o garoto de quase 1,90m, atrevido e tolo como a minha idade revelava. Ele, negro, atarracado, com o eterno meio-sorriso nos lábios, e os olhos, por trás das lentes espessas dos óculos. Os olhos. Aqueles olhos verrumavam a gente. Quando saí da sala, entre aliviado e aterrorizado, eu não sabia, mas era outro. Ou estava começando a ser.

O bondoso e magnífico professor João Batista tinha me dado uma chance, contra todas as probabilidades que apontavam que minha punição seria severa. Eu disse que seus olhos verrumavam a gente? Então. Ele me disse, nessa tarde, que eu era melhor do que aquilo que eu era e fazia. Alguns professores se fazem eternos.

O diretor decidiu, um dia, de supetão, que levaria os líderes das gangues da escola à uma visita ao asilo. Digo “ao asilo” porque, exatamente ao lado do colégio, havia um lar de idosos. O tempo me levou o nome. O diretor achava que esse confronto, de nossa juventude insolente com a velhice esquecida, talvez nos fizesse bem. Nós rimos, quando soubemos. Reviramos os olhos, antecipando o tédio. Mas não tínhamos como saber – quem o poderia ? – que aquela visita nos metamorfosearia. O João Batista sabia. Alguns professores são.

Eu vi pequenos ladrões de chiclete nas lojas tijucanas de mãos dadas com velhinhos, os idosos sorrindo, os jovens de olhos rasos. Moças atrevidas ajudando a limpar e arrumar um quarto, rescendendo a urina. Rockeiros com seus violões tocando e cantando sambas-canções dos anos 30 e 40. Eu, apesar de ser dos mais durões, chorava abertamente.

As lágrimas talhavam à caco de garrafa cicatrizes que escarvaram minha alma, como cascos de cavalo ferindo o chão.

Não sei quanto aos outros, mas, naquela tarde dos anos 80, o garoto que emergiu pela porta e voltou à escola para o final do turno, o violão pendurado às costas, jamais seria o mesmo. Jamais.

Eu tivera o meu primeiro confronto com o Sr. Tempo, e ele garantiu que eu não o esqueceria, aquele senhor com aparência de Ian McKellen, parecença que só muitos anos depois identifiquei.

Eu vi o Tempo, naquela tarde, no asilo, em Vila Isabel, zona norte do Rio, e ele retribuiu meu olhar, entre divertido e curioso, sobre o que aquele menino faria, primeiro, com a chance que lhe fora dada, e, depois, com a sua vida após confrontá-lo.

O tempo preso na garrafa. O tempo redemoinho

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