O Brasil é milhão

Quando eu era um jovem idealista e boboca como quase todo jovem, acreditei que podia ajudar o Brasil. Me inscrevi em um projeto da Cruz Vermelha, que buscava replicar o antigo Projeto Rondon: enviar jovens arrogantes como eu para as vilas nhocunhé nos interiores do país, a fim de auxiliar de alguma forma populações tão carentes.

Isso foi no final dos anos 80.
E lá fui eu para o interior de Minas, lá perto de Pirapora (não, não é a mesma da canção linda do Renato Teixeira), numa paisagem misto de cerrado e caatinga que poderia facilmente fazer parte de “Grande Sertão: Veredas.”
Uma das nossas funções era colher dados dos moradores. Numa dessas, numa cabana de pau a pique, eu e uma parceira entrevistávamos um homem de idade indefinida. Na pergunta: “em que o senhor trabalha?” obtivemos a seguinte resposta:

– ih, moço… eu encomendo almas.

Enquanto minha parceira me olhava com uma expressão de patética surpresa no rosto, eu adivinhei de supetão. Jagunço. O cara era matador, provavelmente.
Sorri amarelo, peguei minha companheira pelo braço, agradeci, mas estava tarde – eram só duas horas, pombas! – e precisávamos pegar a estrada.

Minhas pernas pareciam formadas por uma mistura de sagu com mingau de Maizena, mas consegui sair dali. Achei mais prudente não investigar se minhas deduções sobre a profissão do senhor eram corretas.

“Tive medo, não. Só que abaixaram meus excessos de coragem.” Guimarães, claro.

Como no final de um desenho do He-Man, foi assim que um jovem bobo, da periferia do Rio, aprendeu que o Brasil uno é uma miragem.
Qualquer pensamento, ato, palavra, planejamento, medida, ação, que não tenha essa ideia em mente estará fadada ao fracasso.

O Brasil uno é miragem. O Brasil é miríade. O Brasil é milhão.

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