O amor nos tempos da cólera

Não, amigos e vizinhos, eu não me enganei no título: é assim mesmo, não é nada sobre a obra do Garcia Marquéz.

Hoje na rua observei algo que está se tornando comum, que eu tenho olho bom para o comum, para buscar assim o inusitado no que há de mais conhecido, dá um certo sabor a coisa já sabidas e ressabiadas, sabem?

Então. Ultrapassou por mim um rapaz e, à minha frente, uma moça, vindo em minha direção, e os dois se cruzaram, coisa de segundos, nanossegundos, os dois jovens e belos, nos rostos aquela quase arrogância que nem eles mesmos sabiam que ostentavam, de quem se sabe jovens e belos, com o universo inteiro e mais um pouco à frente.

Fiquei aguardando a faísca, inevitável, tranquila e infalível como Bruce Lee, quando os dois se olhariam, se reconheceriam e cabeças se virariam um átimo após se perceberem, e fragmentos de sorrisos em cantos de lábios seriam detectados e – voilà – o encanto estaria consignado.

Qual o quê. A moça levantou o olhar para o céu – hoje as moças não baixam mais o olhar, nem as tímidas, coisa linda uma tímida de antigamente baixando os olhos e acendendo um rouge-carmim, como na canção de Alceu Valença, nas faces.

Não, pois segundo a nova cartilha do Império Hipocritamente Correto, moças não baixam o olhar – ainda que isso as torne incomensuravelmente mais belas.

E o moço virou a cara, isso mesmo, virou a cara para a moça lindíssima, com traços de índia, de nariz levemente achatadinho, como a Lillo daquele desenho da Lillo e Stitch – como pode virar a cara para uma moça linda daquelas, do tipo que só existe no Brasil, meu siô?!

Os dias são assim: moços e moças se cruzam nas ruas e não se olham mais.

Os moços provavelmente com medo de serem chamados de assediadores e as moças porque provavelmente acreditam que todo homem é um assediador em potencial.

Entre as muitas coisas que jamais perdoarei ao Novo Mundo governado pela ideologia politicamente hipócrita está o fato de ter eliminado, com requintes de crueldade, a mera possibilidade de que moços e moças bonitas cruzem seus olhares e seus meios-sorrisos nas ruas.

Se, antes, o amor estava no ar, como na canção, hoje só restou a cólera.

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