Não me leve a mal: hoje é carnaval

Imagem: Google Imagens – Papo de Bar

Sou um carioca esquisito. Nunca gostei de samba. Tirando uns clássicos de Cartola, Candeia, Paulinho da Viola e Martinho da Vila, o samba, música popular carioca por excelência, nunca me atraiu.

Só gostei de Carnaval por um curto período da infância, quando minha ideia de folia era comprar uma máscara do filme “O Planeta dos Macacos” e sair pelas ruas silenciosas de Bonsucesso. Sim, àquela época, meados dos 70’s, as ruas de Bonsucesso eram silenciosas e tranquilas como quase todas do subúrbio. Depois viria o crime.

Carnaval sempre me entediou. O desfile das escolas, que por muitos anos foi a única manifestação do dito “carnaval de rua” me fazia dormir. Nunca consegui diferenciar uma escola de outra: suas alegorias me pareciam todas semelhantes, os enredos idem e eu cultivava uma secreta desconfiança de que até os passistas eram os mesmos: apenas se revezavam entre as escolas, desfilando sua alegria fake, cujo gatilho era a luz das câmeras.

Já adulto, costumava ir passar o Carnaval em São Paulo – apenas pelo prazer de… não ter Carnaval. Isso acabou, claro. Os blocos cariocas invadiram a capital paulista, deixando acessível a todos da Terra da Garoa o insólito prazer proporcionado por passar horas debaixo de um sol senegalesco, pisando em um aviltante húmus formado por urina, cerveja choca e camisinhas usadas.

Portanto, a paixão pelo chamado “tríduo momesco” sempre foi incompreensível para mim: até descobrir que a nossa aparentemente inocente saturnália desde cedo foi descoberta e incentivada pelas elites revolucionárias responsáveis por descoser, primeiro, e esgarçar abertamente depois, o delicado tecido social da quase inexistente nação brasileira

Na minha família, desde muito cedo, ouvia dizer, como uma espécie de refrão popular repetido por milhões de pessoas no país: “brasileiro só quer saber de carnaval, futebol e cerveja: por isso esse país não vai para a frente!”

Eu, no auge da minha fúria e arrogância estúpida adolescente, ria. Quanto riso.

Mas o tempo mostrou que havia, não mais de mil, mas de milhões de palhaços no imenso salão Brasil.

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