Não importa o tirano: a Liberdade sempre dará um jeito de desobedecer

Eu tinha 14 anos quando comecei a trabalhar.

Não falo para me jactar (toma aí um “jactar” logo cedim, toma!). Para os padrões da época, final dos anos 70, comecei até tarde.

Vários membros da família e amigos diziam, em tom levemente reprovador, que tinham começado a trabalhar com 10 ou 12 anos.

Eu era jornaleiro. Função bem adequada ao meu fetiche de leitor voraz. Eu achava um barato acordar às 4 da manhã, pegar a caminhonete, o vento gelado do Rio nos 70’s, e ir na caçamba com as pilhas de jornais embalados.

Lembro até das músicas que tocavam no rádio da caminhonete, sintonizado na Mundial A.M. ou Tamoio – sim, a frequência F.M. ou era incipiente ou ainda estava para surgir: “Admirável Gado Novo”, do Zé, “Toada”, do Boca Livre, aquela música do Queen onde Freddie imitava Elvis, “Crazy Little Thing Called Love”, Michael Jackson genial em “Don’t Stop Till You Get Enough”, antes de ficar triste, “Coração Bobo”, do Alceu, “Noturno”, do Fagner – sim, amigos e vizinhos, no rádio tocava muita música de qualidade.

Mas me perdoem a viagem. Quero falar de outra coisa.

Um dia, na banca, recebi uma leva de jornais O Pasquim.

E logo em seguida o dono da banca de jornais apareceu e me disse que era para entregar todos os exemplares – a Censura tinha implicado com a capa, liberado e se arrependido da liberação, proibindo a venda.

Um homem que estava ao lado escutando pediu ao dono para comprar todos os exemplares – no que foi alegremente atendido.

“E aí, Joseph?” – perguntará um leitor impaciente – “qual é a CONCLUSÃO? Ou foi só uma desculpa para mais uma viagem no tempo e mostrar como a música decaiu?”

Juro que eu nem tinha pensado nisso. Juro. Mas a conclusão é a seguinte, e acho bem adequada para os dias de hoje, quando proto-ditadores estaduais ameaçam prender e arrebentar:

Não importa o tirano: a Liberdade sempre dará um jeito de desobedecer.

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