Guarde suas memórias

Foto: Joel Mott

Guarde.

O riso solto dos seus filhos numa tarde fria, o vento desmanchando seus cabelos antes de você.

O carinho dos seus pais. O arrumar o cobertor. O levar você para cama quando você pegava no sofá. Você nem sabia mas estavam lá.

A primeira viagem. Para a praia, para a montanha, para dentro de si mesmo. Uma mochila, só. Um chocolate. O bilhete do ônibus, a passagem de avião. Uma jornada inesperada.

A descoberta do amor. Da dor do amor. Daquele filme brega, daquela música brega, que hoje lhe fazem rir. As tais borboletas no estômago só de pensar nele. Nela. Love Story.

Os doces de Cosme e Damião no dia 27. Os tapetes de sal. A família reunida no Natal. Guarde. Até as brigas. Até as passas.

O primeiro blues, a primeira bossa, a primeira fossa, a primeira valsa.

Valse. A valsa vienense. O cheiro dos bailes de debutantes. Tem cheiro, sim, de vida, de coisa jovem e forte e bela e pura.

A família tagarelando enquanto você lava louça. Maritacas tagarelando nos fios elétricos. Urubu flanando na dobra do vento. Do tempo.

Tempo rei e rainha, valete e dama, tempo bobo que nos faz de bobos à sua roda.

Ciranda.

Ciranda da vida.

Guarde as lutas e as cicatrizes das lutas, as vitórias mas também as derrotas.

Todas as vezes que você foi ao chão e se ergueu.

Todas as vezes que você foi ao fundo e emergiu.

Todos os olhares que lançou ao abismo e não enlouqueceu.

O som da chuva nos caibros. O som da palavra “caibros”. O balanço do jardim. A vertigem. O vórtice.

Guarde suas memórias.

Porque, quando você se encontrar na vereda, no fim do caminho onde todos se encontram, é delas que, ao fim e ao cabo, você irá se nutrir.

E seu sabor será doce em sua alma e confortará seu coração.

Guarde suas memórias.

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *