Gente de uma nota só

Ganhei meu primeiro violão com uns, sei lá, 12 anos. Minha mãe fez um esforço e mais um buraco metafórico no cinto metafórico e pegou um Giannini Trovador para mim. O Trovador era o máximo que ela podia fazer – cerca de um ano depois, o cavalete, ou seja, o lugar junto ao tampo onde as cordas são fixadas, descolou e arrancou a madeira.

Imagem: Google Imagens – Amor por violão

Mas o velho Trovador foi útil: foi nele que tirei, de ouvido, as primeiras notas: os riffs de “Satisfaction”, dos Stones, e “Day Tripper”, dos Beatles e a introdução de “Cocaine”, de J.J. Cale, numa versão da banda escocesa Nazareth. Só mais tarde aprendi os primeiros acordes.

Aí descobri Tom Jobim, João Gilberto, Carlos Lyra e outros mestres da Bossa Nova. Tentei aprender “Wave” e… debalde. “Wave” era difícil pacas, com multidões de acordes que eu apelidei de “aranhas”, devido às posições intrincadas das mãos e dos dedos. Só algum tempo depois dominei a harmonia complexa.

Mas então. Como não consegui, de imediato, “Wave” e queria tocar Bossa Nova, pensei: “Samba de uma Nota Só”. Taí, gostei! Deve ser moleza, mamão com açúcar, mel na chupeta.” E me lasquei, claro. Porque a harmonia do “Samba” era moleza, mamão com açúcar, mel na chupeta, só no início. Logo após, guiada pela voz de metrônomo de João, os acordes sofisticavam-se, intrincavam-se, imbricavam-se, até compor uma tapeçaria sonora inacessível a um neófito como eu.

Toda essa conversa é para dizer que eu não suporto gentes de uma nota só.

Sabem o que é? Aquelas pessoas monotonamente monotemáticas, que malham a ferro frio, incessantemente, um mesmo e único tema. Em geral, são adoradores ou odiadores, de um único alguém, de um único assunto, de uma única coisa.

Ao contrário do “Samba de uma Nota Só”, do magnífico Tom – um dos poucos motivos que tenho para me orgulhar de ser brasileiro, junto com Guimarães Rosa – as pessoas de uma nota só não evoluem, não sofisticam, não…

Sinto um certo dó. Deve ser chato ser escravo de um só, em meio à tanta diversidade do mundo. De mundos.

Deve ser chato ser chato.

Vibrar uma única corda, uma única nota, em meio a universo absolutamente iridescente de cores, sons… e Tons.

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *