26 de maio de 2022
Joseph Agamol

Freddie & Jim


“O Paraíso é enfumaçado”, pensou Freddie, rindo baixinho da própria piada infame, um trocadilho com o nome do pub.
Já estava um pouco alto, ainda distante do ponto sem volta que levaria a uma ressaca indesejada no dia seguinte, mas perto do suave entorpecimento que almejava e que sabia que a bebida lhe traria.
Ia chamar o garçom e pedir mais uma quando seus olhos foram atraídos para o homem que acabara de entrar.
Então ele SOUBE. Na hora. Não entendia como, nem o porquê – mas tinha o QUANDO.
Ali, naquele momento, num pub chamado hereticamente de Paraíso, ele, Freddie, soube que tinha encontrado o par de sua vida.
O SEU par. Aquele que lhe estava destinado a seguir seus passos, caminhando ao seu lado, por todo o resto de sua vida, até então incompleta e fugaz.
Freddie ficou com o olhar suspenso no ar, os lábios entreabertos e um sorriso bobo, em meio a pequenos spots de luz, tinir de copos e uma banda apenas competente tocando You’re My Best Friend.
E, nesse instante de brevíssima duração, o mundo pareceu esvanecer como cores de Van Gogh, e permaneceram apenas ele e o estranho recém-chegado.
Aquele que lhe era destinado, por uma estranha conjuração de astros ou pela vontade de um Deus intrinsecamente BOM de que todos os seus filhos fossem felizes, não importando a herança de seus genes ou se o que fazia seu coração bater mais forte era um menino ou uma menina.
Ele sentiu o sal das lágrimas ameaçar transbordar de seus olhos e lutou contra elas, “não, nada de chorar feito uma moça tola, Freddie, não vá estragar tudo agora, não, agora NÃO, por favor, por favor…”
Alguém chamou o estranho sem nome, “hey, Jim!”, e ele descobriu o nome do seu amor para a vida inteira e mais uma canção, e todas as canções, compostas ou a compor. E sentiu as lágrimas de novo e dessa vez não as conteve: deixou fluir e um alívio imenso chegou, junto com a certeza.
Porque, ao fim e ao cabo, o amor não se trata sobre quanto suor é deixado nos lençóis mas sobre quantas lágrimas, de alegria ou dor, transbordam dos olhos dos dois, juntos.
(Esse texto é dedicado a Freddie Mercury, hoje, um dia depois do seu aniversário de 73 anos, e a Jim Hutton, pelo amor que os acolheu por todos os momentos. Parabéns, Freddie.)

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Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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